domingo, 24 de fevereiro de 2008

Esquinas




Me deslocava, a pé, por São Paulo no final de manhã chuvoso desse domingo e mais uma vez uma cena de esquina me chamou a atenção: como em todos os faróis das regiões mais movimentadas um carro parado, e alguém se aproximando com o intuito de angariar algum trocado. O garoto que faria o papel do pedinte era mais um desses malabares que ficam fazendo número com algumas bolinhas de tênis sujas e puídas, mas todo um cerimonial novo - ao menos para mim - de aproximação do veículo alvo foi sendo executado, com o moleque e seu enorme sorriso executando uma breve dança na qual levantava a camisa e girava o corpo, demonstrando ostensivamente ao condutor e potencial futuro benemérito que ele era um ser desarmado naquele momento e que o modo imaginado para conseguir um pouco de dinheiro era o da solicitação, o da exibição artística à espera da compreensão.

Naquele momento eu cantarolava baixinho "Moonshadow", de Cat Stevens, e estava absolutamente imerso e tocado por um clima de anos 70 - um mundo que ameaçava revoluções boas, pacifismo, tentativas humanistas... Diante da cena da rua de São Paulo fui ficando pasmo, embasbacado e, automaticamente, passei a questionar cá no meu âmago o que está acontecendo nessa Terra que ameaçou grandeza. Caramba, pensando no Brasil que todos sempre idealizaram como a civilização de "futuro perfeito".

Que civilização é essa onde o moleque, que já não tem nada seu mesmo, precisa se humilhar (demosntrando-se desarmado) para novamente passar a se humilhar (tendo de pedir para que algo seja seu)?

Que civilização é essa em que o homem que tem um carro precisa ser certificado de que aquele que vem lá à frente de seu pára-brisas irá pedir um pouco do que é seu, e não tomar à força?

Que civilização, onde esse que tem carro não pode ter o direito de sair com ele, se fruto de trabalho e suor? Mas, também, que civilização, onde alguém - mesmo o que comprou com trabalho - tem o pouco bom senso (para dizer o mínimo) de ostentar, numa terra onde os que nunca terão são em enorme maioria?

Onde alguém imagina que tem o direito de tomar à base de armas o que imagina ser de seu direito; tanto como daquele que ostenta inadvertidamente imagina? Que civilização é essa onde o que faz valer seu direito na marra acaba por colocar no mesmo barco aquele que imagina que pedir é a melhor maneira (se bem que ambos estejam na mesma barca miserável e furada)?

Que país é esse, onde os miseráveis tomam as esquinas, e onde os não miseráveis tentam fugir delas? Onde quem tem algo não pode ostentar, até porque muitos desses que têm algo só o têm porque executaram indignidades para tal - fazendo com que todos (mesmo os que trabalharam) estejam na mesma barca dourada, mas também furada?

Que raça é essa, a humana, que deixa os ciganos serem "exodados" como que por atos de limpeza étnica numa Itália rica? Ou que vê romenos fazendo as vezes do nosso nordestino - ou do cucaracha junto aos USA - no mundo todo, mas principalmente na culta e ostentadora Europa?

Pra lembrar: a mesma raça que fez as artes plásticas, imaginou maneiras de esticar a vida, fez a música, o cinema. O cinema que - me perdoem - é a mais bela das invenções sonhadoras da raça, que retrata essas desigualdades, que retratou os belos anos 70 como a conseqüência idílica e lírica dos agitados 60.

Eu ouvia Cat Stevens e sonhava, na realidade. Ouvia, cantarolava e "vivia cinema" naquele instante. Mas há esse mundão duro das esquinas. E o moleque se mostrava desarmado com um sorriso na cara e olhar penetrante, concentração nas bolinhas...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Azarão



Para aqueles que não conhecem mais a fundo esses tais "críticos independentes" (e me incluem nesse rol), uma das certezas mais inquestionáveis versa sobre suas opiniões quando o assunto é "Noite do Oscar". Os que olham esse pessoal de maneira respeitosa/apavorada/jocosa, do lado de fora, imaginam que Berlim, Cannes, Veneza e afins são somente o que interessa como avaliação respeitável de obras cinematográficas - conseqüentemente, filmes exibidos nesses festivais também seriam as únicas obras de algum valor, ou merecedoras de atenção. Portanto, Oscar e sua noite de festa seriam o que de pior o cinema poderia oferecer ao mundo.

Quanto ao respeito aos festivais europeus citados acima é até uma verdade quando se pensa neles como alvo de atenção especial desse "povo cinéfilo" atrás do que mais relevante e instigante se faz na área. Mas não é menos verdade que a noite de festa da indústria do entretenimento - no país do capitalismo (do apavorante palhaço "R's" como representante risonho da hiper-rede de lanchonetes "M's"), onde se faz filmes como se numa linha de montagem - acaba sempre por angariar a atenção desse mesmo pessoal considerado "ranzinza" que, com ardor e fervor, se posta feliz da vida frente a televisores, normalmente em turma, na véspera do pior dia da semana: as tão famigeradas segundas-feiras. Esquecem-se do inevitável sono e mau-humor que farão “as vezes” de partner do dia seguinte, mas não deixam de acompanhar a premiação.

Há um "prazer cinema" nesse povo cinéfilo/críticoindependente que é assustador e admirável de tão potente. A imagem que se faz deles (da gente) é equivocada quando não se percebe que são mais abertos a experiências do que qualquer um, e que nutrem respeito por qualquer lugar que faça da arte opção preferencial - e não daria, portanto, para imaginar os USA (com um monte de cinema maravilhoso, aliás) e seu Oscar fora dessa alça de mira.

O mais engraçado, porém, são algumas situações que ocorrem do lado de cá da telinha nessas noites de domingo. Sei de várias reuniões que ocorrem com o intuito de fazer da longa noite da entrega das estatuetas douradas um evento– em nenhum momento, até agora, disse que a cerimônia era bacana na íntegra, ou orgânica, ou pouco kitsch (inclusive acaba por ser um desafio com seu alongado tempo ao bom humor, à luta contra o sono...) -, mas vou me referir às organizadas pelo pessoal aqui do meu site (cinequanon), para tentar chegar a um fim razoável da razão de ser desse post.

O site é novo – fará três anos ainda -, mas nos reunimos desde que existimos como grupo para acompanhar a festa. E um inevitável bolão passou a se organizado com intuito de fazer do fim de noite de um de nós algo mais aprazível... Bacana mesmo no primeiro ano foi o desfecho inusitado que virou mito entre os pobres coitados que não tiveram a oportunidade de estar presentes. Faltando apenas a última premiação que era a de melhor filme, um de nossos representantes – não vou citar nomes, mas digo que o rapaz parece uma espécie de Clark Kent com sotaque de Guararema – já colocou o dinheiro resultante das apostas no bolso, dado o improvável que seria o de ser ultrapassado somente por um outro (no caso, novamente sem denunciar mais diretamente, nosso mais jovem e beberrão nipônico) que havia apostado como vencedor no improvável (impensável, impossível, inacreditável...) “Crash – no Limite”, de Paul Haggis. Bem, ano de 2006, quem conhece um pouco de cinema já deve ter percebido o que aconteceu: o moleque incrédulo e rindo – pensando nas cervejas que iria beber com a “fortuna”; nosso Clark Kent interiorano sem graça e tendo que tirar o dinheiro do bolso; o resto do povo rindo e embasbacado; e o mito (ou lenda) criado.
Tudo isso, na realidade, para dizer que tenho sido sempre o último ou penúltimo nesses bolões – não sei se entendo menos de cinema do que os outros, se sou mais azarado, ou se falo mais com o coração do que com estudos do assunto e lógica. Tudo isso pra dizer que próximo domingo tem Oscar de novo, tem reunião de novo, tem bolão de novo e novamente eu, despreparado. Não vi quase nenhum filme em competição aos prêmios mais importantes. Pensei que hoje, quinta-feira, iria tirar algo do atraso, mas até agora (17,30h), ainda não tive chance. Já me vejo novamente como azarão, tentando dar chutes, pensando no que ouvi dizer, no que imagino como mais importante, no sei-lá-o quê. Aceito palpites sinceros (rs). Ou rezas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Vida nova nesse velho corpo


Após quase três anos de uma nova vida no mundo da internet, das modernidades, afinal - passo que dei por conta da criação do nosso site, o cinequanon.art.br - avanço mais um pouco, deixo minha "tacanhez" um pouco mais para trás e ingresso agora naquele setor mais ligeiro e informal que é esse onde habitam os blogueiros e seus blogs. Uma razão mais contundente para tal é a reformulação que nosso site está sofrendo nesse momento - o que fará com que blogs dos editores passem a ter um valor de peso bastante considerável daqui em diante.

Confesso que idéias não me faltarão e quem tiver coragem de acorrer a essa novidade deverá estar precavido para uma quantidade razoável de abobrinhas mescladas a textos e idéias de razão mais coerente.

Essa é somente uma postagem de início, de nascimento, de reapresentação para quem me conhece por outros meios. De agora em diante, vida nova nesse velho corpo.