quarta-feira, 19 de março de 2008

"Um bom livro, um velho amigo..."



Dentre as coisas boas da vida – certo, excetuando o cinema que é "the best" – dá pra destacar duas como algumas das melhores: a leitura de um bom livro e a conversa franca e desarmada que só se consegue quando travada com um grande amigo. Por vezes percebo inconcebível trocar poucas palavras, que sejam, com pessoas que não têm ou nunca tiveram o hábito da leitura. Fica razoavelmente difícil estabelecer qualquer grau de interesse, ou de atração, em tentativas com pessoas que não consideram um bom livro como um grande companheiro em momentos de isolamento (necessário) ou de buscas diversas. Há muita gente assim. Há muita gente no meu mundo do cinema assim. Mas há uma réplica tão exata quanto inequívoca quando da transposição natural da "simplicidade nas cumplicidades mundanas" – que é boa, mas não pode ser eterna, não se sustenta por si só –, para terrenos que exigem imersão maior, mais verdadeira, (mais erudita?); quando da transposição que se tornará marca indelével no reconhecimento do outro. Surge o abismo. Uma "verdadeira" diferença se estabelece, e o que parecia num início troca similar, se revela casamento de complicado porvir.
Evidente que a manutenção de um amigo que esteja para sempre dentro de importantes patamares, como antigüidade, longevidade, proximidade, deve passar – no meu caso – pela similaridade nos gostos, nos hábitos cultos (cinema, música, outras e o gosto por uma boa leitura, obviamente). Evidente que amizades não são necessariamente ditadas pelo ritmo das letras, mas não tenho casos próximos a mim que duraram sem ao menos algumas boas conversas trocadas referindo livros. Velhos amigos acabam - quando estabelecido que freqüentarão meus anseios e necessidades de contato - por se tornar uma peça chave no nosso desenvolvimento emocional. São aqueles em quem você bota fé pra se abrir em confissão; ou que te fazem se deslocar em meio às maiores dificuldades na tentativa do socorro quando rogado, pedido. Dentre as minhas melhores lembranças estão os momentos "rachados" com esses seres que não se impuseram em minha vida por consanguinidade - já diz um velho dito que os amigos são nossos verdadeiros irmãos, pois são os escolhidos e não os impostos.

Portanto, explicitada a importância que dedico a essas duas coisas, entidades, peças de vida; explicitado que, não por acaso, uma não teria vida longa se não fosse nutrida pelo interesse comum pela outra; explicitado que um velho amigo e um bom livro são coisas que prezo, vou citar um pouco o Kiko. Ricardo Bellissimo para os mais formais, o Kiko é um daqueles amigos que tento preservar - por vezes a duras penas da distância, do apurado e da correria do dia-a-dia - no decorrer desses últimos já muitos anos. Cara bacana, exageradamente cheio de imaginação, rápido nos troca(ga)tilhos, é figura que respeito como irmão optado. Kiko, não por acaso, gosta de um bom livro como poucos - exageradamente, até, como sempre. E Kiko, ainda por cima, escreve livros... Quase surreal.

Quase surreal é o humor dele, que se transporta de modo bastante fluido e nítido, denunciador, às suas conformações estilístico literárias. Quem já leu algum livro seu - ou algum artigo publicado em revistas "underground" - e com ele mantém o hábito do contato comum, não consegue dissociar o texto, da figura física magrela, comprida, de cabelos amarelos e sorriso tanto autêntico quanto infanto/sarcástico. Ele já havia publicado dois livros anteriormente, "Libido Siamesa" e "Sombras e Nefastos", onde demonstrava ostensivamente sua capacidade imaginativa, criativa, fazendo dessas o principal sustentáculo dessas primeiras obras - que tanto se nutriam quanto "pecavam" pelo excesso. Eram tempos de um escritor muito jovem que experimentava e iniciava.

Agora o Kiko (ou Ricardo, como queiram) está lançando seu terceiro trabalho escrito, "Sufoco", que tive a oportunidade de ler já há algum tempinho, ainda não concluído, com erros e formatação de algo que estava em construção, quase terminado, mas ainda não definitivo. Mas já me pareceu então sua obra mais completa, mais adulta, sem os excessos da juventude - mas mantendo o excesso (e bote excesso nisso) da imaginação, da criatividade; atirando certeiramente (com tinta, que é a melhor munição, afinal) em alvos certos, que se escondem atrás de "fachadas". Imagino que o livro tenha sido fechado com todo o vigor que observei naquela primeira leitura, com os pequenos acertos que faltavam, e imagino que visitar o lançamento possa ser uma aventura interessante. Os amigos vão adorar rever a figura; algum incauto que queira arriscar também se surpreenderá positivamente; o escrito deve ser bem bom. Boa sorte pra esse meu velho amigo nessa nova gestação que deve ter gerado um bom livro.

Ah, o lançamento se dará no Bar Café Feira Moderna (rua Fradique Coutinho, 1248), aqui em São Paulo, hoje (19 de março), a partir das 20,OOh.

2 Comentários:

Às 26 de março de 2008 às 17:07 , Anonymous Anônimo disse...

Caríssimo Cid, grande amigo de tantas jornadas e telas e cafés e bobagens e discussões profundas e acaloradas.
É muto bom saber que está em sua índole valores de amizade. Há pessoas que nascem e zelam profundamente por tais valores, outras simplesmente nao.
Fico eternamente agradecido por suas palavras, e é muito bom saber que possuo em ti um amigo da mais alta estirpe intelectual e humorística.
Um grande abraço
Do sempre amigo
Kiko
P.S.: e que seu blog seja cada vez mais bem conceituado entre pessoas que prezam a arte, a amizade e o interesse por toda e qualquer coisa mundana. E, assim, viva o mundo cão.

 
Às 26 de março de 2008 às 17:07 , Anonymous Anônimo disse...

Caríssimo Cid, grande amigo de tantas jornadas e telas e cafés e bobagens e discussões profundas e acaloradas.
É muto bom saber que está em sua índole valores de amizade. Há pessoas que nascem e zelam profundamente por tais valores, outras simplesmente nao.
Fico eternamente agradecido por suas palavras, e é muito bom saber que possuo em ti um amigo da mais alta estirpe intelectual e humorística.
Um grande abraço
Do sempre amigo
Kiko
P.S.: e que seu blog seja cada vez mais bem conceituado entre pessoas que prezam a arte, a amizade e o interesse por toda e qualquer coisa mundana. E, assim, viva o mundo cão.

 

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