quinta-feira, 6 de março de 2008

Uma breve divagação a partir de "O que Refletem Esses Pedaços"




Quem me conhece um pouquinho mais sabe da relação conflituosa que mantenho com o teatro. Sabe da dificuldade que tenho em me fazer flexível quando o modelo exige – bem ao contrário do que acontece quando o "modelo" cinema me pede compreensão. A linguagem do palco me causa um distanciamento que impede tentativas mais ousadas ou generosas de minha parte, fazendo com que creia, sempre e sempre, que assim que as luzes se apagarem caretas exacerbadas tomarão as possibilidades de inflexões faciais mais sutis – a qualquer custo -, vozes anormalmente alteradas e gritalhonas tentarão passar seu recado para uma platéia que pareceria constituída por deficientes auditivos com grande capacidade de leitura labial, e outras "vilanias" mais. Me afasto sem sequer tentar perceber, de maneira racional, que coisas boas devem surgir – ao menos de tempos em tempos - lá por aquelas bandas, e que um algo que seja de capacidade intelectual apreciável deva restar do excesso de auto-endeusamento "culto" que reveste e encarapuça os personagens que lutam e constroem a arte cênica.

Reprovável esse meu comportamento, que infere avaliação negativa a um todo, partindo de poucas experiências. Imaginar que alguém que preze as artes como o grande trunfo humano sobre a existência – sim, imagino mesmo que as artes são a manifestação que nos diferencia totalmente das outras vidas sobre o planeta, a grande diferença, o que nos tira verdadeiramente da simples classificação "humanos" (como uma subdivisão pura e simples, mais uma categoria, do mundo animal), para adjetivá-la com humanidade, por exemplo - possa desprezar o teatro com desdém rançoso e algum rancor mais evidente é, no mínimo, contra sensual. A arte como a principal chave divisora, muito mais do que o dedo polegar opositor, talvez numa proximidade mais real às das conquistas "sociais" egressas dos avanços humanistas; mas as artes com a vantagem do lúdico, que avançam junto com o pensamento e conquistas, que possibilitam o inegável e necessário "descanso" proporcionado pelo sonho - e se estendermos isso vamos parar na construção da psicanálise com sua utilização dos mitos...

Os "teatristas" auto proclamam sua arte como a mãe de todas; talvez tal comportamento de arrogância seja outro fator a me distanciar, me excluir de tentativas de inserção, quanto mais de compreensão. Sendo um cara do cinema como sou, vejo-o (o cinema) como a realização mais complexa e fechada, como a arte "viva" que aglutina um tanto de todas as mais conhecidas e que nos é entregue assepticamente conclusa sem a improbabilidade do erro que se modifique numa segunda visita, ou da virtude (acerto) que possa escorregar numa revisão - tudo isso pela mecânica da execução, pelo ato ou fato que estão lá "impressos" em imagens e sons que não terão como ser modificados, e não pela essência que pode ser alterada através da reavaliação, do repensar naquilo que foi visto, ou do sono que transforma após uma noite dormida sobre o assunto que foi visto na tela; bem entendido.

O propósito de me colocar numa tentativa de discutir algo de teatro e de meu modo de percebê-lo nesse meu blog, que é pra tudo sim, mas que tem a "alma" de um cara que tentará discutir cinema na maior parte do tempo possível, foi a visita redobrada que fiz a um espetáculo teatral, final do ano passado, por convite de uma pessoa querida (Renata Coloni, atriz e uma das produtoras). A peça é "O Que Refletem Esses Pedaços". À época estava sendo encenada no bairro da Penha, São Paulo. A visita num domingo, início de noite, ao bairro vizinho ao meu de origem, o clima de final de ano e o longo tempo distante de alguma apresentação em palco, ao vivo, me motivaram e mexeram com algumas certezas "inabaláveis".

Importante dizer que a peça trata da alma feminina, da essência mais interior, e esse modo de tratamento é obtido através da utilização e reinterpretação de trechos da obra do grande cineasta Ingmar Bergman - falecido ano passado, e homem de teatro, também. Portanto mais um fator de aproximação ao evento (no caso, o do Bergman diretor de cinema). Citei no blog do Cinequanon, após a primeira visita, que ir à Penha, ajuntado ao fato de ser peça que "usava" o diretor sueco, também era coisa de cinema, e aí me pegava - inconscientemente? - tentando fazer parecer qualquer alerta meu a um espetáculo de palco, não como um deslize ante convicções arraigadas, um ceder espaços, mas algo que de alguma forma tinha obrigatoriamente a sétima arte como geradora da opinião, do convite.

Eu mesmo voltei ao teatro no domingo seguinte para rever "O que Refletem Esses Pedaços". Importante dizer que a experiência se fez necessária ante a "possibilidade dupla" que o espetáculo oferece ao público. Há uma divisão no palco, há uma tela (cinema?) que divide as duas atrizes - a outra, a propósito, é Rita Grillo -, há o que seriam "os dois lados do cérebro". Portanto, voltei para ver o "outro" lado. E aí a surpresa que me pega de calças curtas e me faz repensar um tanto o teatro - principalmente na sua comparação ao cinema. Eu não só constatei um outro lado, pura e simplesmente. Constatei uma diferença crucial e interessantíssima entre as duas artes. Havia pequenas e sutis mudanças nas interpretações de um domingo para o outro. Era como perceber que há um jogo que impõe atração extra ao modelo. Diferente do cinema que, mecanicamente, se entrega pronto, o teatro se revelou para mim, como algo que não se "envergonhava" dessa sua imperfeição "humana". Logicamente que isso não foi o suficiente parta me encantar definitivamente por um, descrendo do outro. Acho importantíssima essa capacidade do cinema pensar saber tratar com a perfeição - e isso me agrada demais, até porque se faz manifestação humana (novamente) das mais insólitas essa tentativa. Acho admirável essa ousadia.

Mas compreendi um algo novo na outra arte que me fez passar a vê-la com olhos menos críticos e preconceituosos. Se o seu entorno, se muitos dos que a fazem e a trabalham são de arrogância estranha, ok. Nada mais natural, afinal. Falo desde o início do texto das características diferenciadas da espécie. O fato de ela (a arte teatral) se perceber, se aceitar e se "vangloriar" (a ponto de parecer arrogante) dentro dessas imperfeições; o fato de ela se nutrir delas me desarmou de certa maneira. Certo que falo isso a partir de um espetáculo simples, porém pra lá de sincero; que busca ser forte e incisivo nas suas atitudes, no seu palco, nas suas caretas, nas suas retrações. Coloco esse texto no ar agora por conta da reestréia de "O que Refletem Esses Pedaços" - que tem direção de Nicole Aun (agora num pequeno teatro, espaço de arte, chamado "O Lugar", rua Augusta 325 - tel: 32273324, a partir dia 8 de março, aos sábados e domingos).

Espero que quem o vir venha falar comigo, tente me convencer de que vale a pena continuar a amolecer a alma.
P.S.: para quem quiser mais informações - cáspite, parece até propaganda de divulgação, mas vá lá -: www.myspace.com/psicotoque

1 Comentários:

Às 15 de abril de 2008 às 18:27 , Anonymous Anônimo disse...

Oi Cid. Fui ver essa peça por ter visto que você a citou desde o ano passado no cinequanon e pela sua insistência agora no blog. Como já nos conhecemos há bastante tempo fiquei curiosa com seu interesse por um trabalho teatral já que não é muito de seu feitio discutir o assunto.
Curiosidade atiçada de mulher e lá fui eu no último final de semana. Concordo com a sua breve avaliação do espetáculo, que se fixou no modo de trabalho da psiquê feminina. Achei interessante você ter destacado a ligação do surgimento de tudo à figura de Bergman como uma espécie de braço de união à sua área que é o cinema.
Fiquei satisfeita com a dica. Ficou bastante evidente que a produção deve ter sido feita muito mais com a cara e a coragem das meninas envolvidas do que com recursos obtidos em algum outro setor. Ao mesmo tempo em que isso transpareceu evidentemente na concepção do cenário, vestuário e apetrechos utilizados, um certo orgulho feminino tomou conta de mim. A peça é muito mais feminina, muito mais intimista do que qualquer homem poderia entender. Tanto você como o Bergman, como seres mais sensíveis do que a imensa média masculina, são dignos de poderem ter algum tipo de participação na vida dela. Com certeza. Mas há ali embutida uma comunicação que somente as mentes das mulheres conseguem captar sem tanta racionalização.
Se o espetáculo é pobre em recursos, é rico pelas interpretrações, pelas idéias, pela compreensão e reinterpretação feminina do que Bergman pensa da alma da mulher, e me deu orgulho por ser um evidente esforço de garotas. Em variados sentidos.
Pena que peças desse nível de ambição não cosnigam mais destaque na grande imprensa, que quer o produto bonito, sem enganos ou tropeções.
Marina Feital

 

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