Esquinas
Me deslocava, a pé, por São Paulo no final de manhã chuvoso desse domingo e mais uma vez uma cena de esquina me chamou a atenção: como em todos os faróis das regiões mais movimentadas um carro parado, e alguém se aproximando com o intuito de angariar algum trocado. O garoto que faria o papel do pedinte era mais um desses malabares que ficam fazendo número com algumas bolinhas de tênis sujas e puídas, mas todo um cerimonial novo - ao menos para mim - de aproximação do veículo alvo foi sendo executado, com o moleque e seu enorme sorriso executando uma breve dança na qual levantava a camisa e girava o corpo, demonstrando ostensivamente ao condutor e potencial futuro benemérito que ele era um ser desarmado naquele momento e que o modo imaginado para conseguir um pouco de dinheiro era o da solicitação, o da exibição artística à espera da compreensão.
Naquele momento eu cantarolava baixinho "Moonshadow", de Cat Stevens, e estava absolutamente imerso e tocado por um clima de anos 70 - um mundo que ameaçava revoluções boas, pacifismo, tentativas humanistas... Diante da cena da rua de São Paulo fui ficando pasmo, embasbacado e, automaticamente, passei a questionar cá no meu âmago o que está acontecendo nessa Terra que ameaçou grandeza. Caramba, pensando no Brasil que todos sempre idealizaram como a civilização de "futuro perfeito".
Que civilização é essa onde o moleque, que já não tem nada seu mesmo, precisa se humilhar (demosntrando-se desarmado) para novamente passar a se humilhar (tendo de pedir para que algo seja seu)?
Que civilização é essa em que o homem que tem um carro precisa ser certificado de que aquele que vem lá à frente de seu pára-brisas irá pedir um pouco do que é seu, e não tomar à força?
Que civilização, onde esse que tem carro não pode ter o direito de sair com ele, se fruto de trabalho e suor? Mas, também, que civilização, onde alguém - mesmo o que comprou com trabalho - tem o pouco bom senso (para dizer o mínimo) de ostentar, numa terra onde os que nunca terão são em enorme maioria?
Onde alguém imagina que tem o direito de tomar à base de armas o que imagina ser de seu direito; tanto como daquele que ostenta inadvertidamente imagina? Que civilização é essa onde o que faz valer seu direito na marra acaba por colocar no mesmo barco aquele que imagina que pedir é a melhor maneira (se bem que ambos estejam na mesma barca miserável e furada)?
Que país é esse, onde os miseráveis tomam as esquinas, e onde os não miseráveis tentam fugir delas? Onde quem tem algo não pode ostentar, até porque muitos desses que têm algo só o têm porque executaram indignidades para tal - fazendo com que todos (mesmo os que trabalharam) estejam na mesma barca dourada, mas também furada?
Que raça é essa, a humana, que deixa os ciganos serem "exodados" como que por atos de limpeza étnica numa Itália rica? Ou que vê romenos fazendo as vezes do nosso nordestino - ou do cucaracha junto aos USA - no mundo todo, mas principalmente na culta e ostentadora Europa?
Pra lembrar: a mesma raça que fez as artes plásticas, imaginou maneiras de esticar a vida, fez a música, o cinema. O cinema que - me perdoem - é a mais bela das invenções sonhadoras da raça, que retrata essas desigualdades, que retratou os belos anos 70 como a conseqüência idílica e lírica dos agitados 60.
Eu ouvia Cat Stevens e sonhava, na realidade. Ouvia, cantarolava e "vivia cinema" naquele instante. Mas há esse mundão duro das esquinas. E o moleque se mostrava desarmado com um sorriso na cara e olhar penetrante, concentração nas bolinhas...

1 Comentários:
Não é que eu não acredite que não sejam bons atores, ou que o problema não seja verdadeiro. Como um bom brasileiro já ouvi o ruído da fome e sei bem o nome dessa dor que se carrega de barriga vazia. Todo dia essa agonia fria me obriga a virar o rosto, sentir no corpo a dor do todo, pelo tão pouco que faço. Falta espaço pra que cresça o futuro.
Peço que não me leve a mal, mas não é o meu um Real que vai curar a tal dor aguda, contínua. Que vai tirar de cima de nós a tal cruz esmagadora, a enganadora fé numa mudança instantânea.
NÃO BASTA ADICIONAR ÁGUA!
Tem mágoa demais pra dissolver nesse asfalto negro.
Enquanto isso, me contamino das paisagens de casas improvisadas, de privadas a céu aberto, desse deserto noturno sem oasis, sem olhares de cumplicidade. Me deixo ir nas curvas acentuadas e nas freadas bruscas. Ainda não achei a cura pra esse câncer em minhas buscas pelo céu. A cidade faz silêncio de medo. Desespero de desejo por uma luz maior, por um cessar nesse nó, nessa guerra não declarada.
Calada, uma menina oferece drops no sinal. Já faz parte, banal sub-emprego para sub-vidas em decomposição. Queria tomar a contramão. Mas é transporte coletivo e meu instinto ativo dorme.
Enquanto você caminhava e sonhava cantarolando Cat Stevens, quanto de sonho cabia na sua realidade ou qual o tamanho da realidade desse seu sonho?
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