sábado, 29 de março de 2008

Desordem, bang e blá = Tonacci







Ontem estreou aqui em São Paulo um dos grandes trabalhos cinematográficos de todos os tempos. Sem exagero nenhum, posso garantir. Incluindo nessa possibilidade de comparação filmes dos grandes Glauber, Sganzerla, Bressani, Person... Nesse caso, o autor: Andrea Tonacci. Esses alguns que citei (somente a título de ilustração, e sabendo que há mais um tanto de nomes que confeccionaram obras de arte de nível tão superior quanto), mesmo transitando num patamar não tão grande de reconhecimento junto ao grande público, ainda conseguem ser "identificados" por algumas razões extras; mesmo que de raspão, de orelhada, de "ouvi dizer". Já no caso de Tonacci (aliás, italiano de nascimento), beiraria a incompreensão o grau de ignorância quanto à sua existência dentro do mundo da arte caso não fosse quase que opção sua uma espécie de auto-isolamento adotado diante das possibilidades do mundo da informação.

Autor que não está nunca aí para qualquer rigidez de prazos fixos como obrigatoriedade para se manter em evidência, sempre trabalhou num ritmo que lhe possibilitou executar obras para deixá-lo (a si mesmo, principalmente) satisfeito como artista rigoroso. Nunca se deixou "manipular" pelas imposições que o mercado arroga como únicas maneiras (caminhos) de retribuição de reconhecimento maior junto ao "mundo". Além do mais, sua arte é de caráter extremamente particular, coadunando com seu modo de compreender o todo. Seus filmes são "pensadamente" obras inconclusas como pacote a ser identificado. Ele jamais exerce a função do acabamento linear, ou do registro camuflado que faz do cinema arte somente ilusória - deixa transparecerem "pontas técnicas" em seus trabalhos, quando revela microfones, reflexos de câmeras... Para ele é evidente que o cinema pode abraçar linguagens variadas, criar; e isso também se reflete no momento em que, num "Serras da Desordem", qualquer possibilidade de catalogalização por termos definidos (ficção, documentário, animação...) pareça tentativa insana de quem insistir em tentá-la.

Tonacci é o autor que entrega o produto que parece totalmente solto, irregular, equivocado, mas que, ao final, faz perceber que boa parte de sua potência criativa está justamente nesses "enganos". "Serras" é um dos grandes filmes de todos os tempos. Trabalho complexo que demonstra ter sido concretizado como um apanhado geral do que ele havia feito anteriormente.

Só para concluir e deixar nítitido o grau de importância de Andrea, vale lembrar que na edição virtual da revista Paisà em que vários críticos votaram nos melhores 20 filmes brasileiros de todos os tempos (http://www.revistapaisa.com.br/anteriores/ed9/topsbr.shtm), "Bang Bang" e o próprio "Serras da Desordem" marcaram posição - e eu votei em "Blá, Blá, Blá", também. Abaixo coloquei comentários sobre os três filmes - dois resgatados de minha cobertura do Festival de Cuiabá, ano passado, onde o diretor foi homenageado, e um que fiz como parte da matéria da Paisà (completo, como mandei). E vale lembrar que no meu site, o cinequanon, há críticas por conta da estréia do filme, e o resgate de um bela entrevista concedida por ele, no momento em que comemorávamos aniversário e fomos abençoados com a possibilidade da primeira exibição do filme - como o mais belo presente que poderíamos ter recebido.


--------------


"Serras da Desordem"

Esse é o grande filme do grande diretor que só tinha realizado, até então, grandes e quase desconhecidas obras. Serras, acaba por ser um amontoado dos conhecimentos de Tonacci, da vida dele, do modo que entende e constrói cinema. A carreira do diretor é irregular (se vista por uma constância temporal de produção) e seus filmes deveriam ser definidos como irregularmente geniais. Ousado, optou por fazer da arte uma ferramenta de expressão que anda muito bem sem o rigor do acerto a qualquer custo, invertendo esse conceito radicalmente quando optou por realizar uma outra coisa – vista sob essa ótica do acerto -, que não simplesmente "filme de cinema".
Quando o filme inicia e se estende na mesma e pacata toada por cerca de vinte minutos – mostrando de maneira idílica o modo de vida dos nativos dessa nossa terra -, se faz nítido que Andrea nunca procurou o caminho fácil para a capturar o público. Esse ritmo "natureza" é quebrado abruptamente com a entrada do homem branco em cena, e o estranhamento em relação a todo aquele início só vai acentuando e fazendo com que percebamos que não é de certezas que a obra se nutrirá para se contar. O trem que surge – a modernidade barulhenta e invasiva – remete os personagens aos nossos tempos e às nossas cidades, e o índio (Carapirú) que vagueia por longos anos revela a insanidade que se fez e se faz, ainda, contra os donos por direito dessas paragens.
Sem muitos avisos, de modo fantasticamente irregular, o filme dá guinadas e se revela documentário, se revela obra que cobra "razões", se revela um dos mais sensíveis retratos de nossa história - se revela, nas cenas antigas de uma reportagem, a realidade mais ficcional que se poderia imaginar. Para não falar na última cena, antológica, sem diálogos, e que diz tudo o que precisa ser dito – para que quiser entender.

---------------


"Blá, Blá, Blá"

Noite de encerramento que se preze teria sempre que passar alguma obra de Andrea Tonacci. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo: daí, qualquer mortal sairia santificado e não notaria que tais eventos podem se estender a mais da conta, mais do que o suportável. Se bem que, no caso aqui de Cuiabá, apesar de estendido (vinte e cinco prêmios distribuídos), muito por conta do apresentador oficial do evento - o divertido, perspicaz e original Julio Bedin – o trajeto percorrido por todo o cerimonial fluiu fácil e com os contratempos necessários para a ocasião. Mas, voltando a falar da verdadeira benção que é a oportunidade de se assistir – após uma eternidade – a um filme como "Blá Blá Blá" (fotos 2,3 e 4)do homenageado diretor: impressionante como Tonacci sempre teve o que dizer com seu cinema. Filme de 1968 – bem dentro dos momentos mais cruéis do regime militar -, sua confecção já seria suficiente, pelo elevado teor político premonitório, para ser considerado como um trabalho a ser registrado como imprescindível em qualquer local do planeta que estivesse passando por momentos tão insanamente humanos. O discurso proferido por um "possuído" Paulo Gracindo beira a genialidade pelo seu conteúdo e, mais ainda, por dizer e desdizer as verdades, por inverter o que seria obviedade na boca de um ditador "família e pátria", com um discurso falsamente manso, conciliador, que, aos poucos, perde essa embalagem de papel frágil, para revelar-se um falar que coaduna com o que se deveria esperar de figura de tal monta. Em contrapartida, há o discurso do que luta pela honra humana, e que é apresentado como agressivo, como o que prega a não compreensão, a não conciliação, num aposto ao anterior, que vai aos poucos fazendo perceber a origem do título, a origem do falar por falar, que não quer dizer nada mesmo – pior, quer não dizer o que acontecerá ao que diz e é mostrado como o intransigente pelo seu blábláblá. Os símbolos de Tonacci estão lá – há os perseguidos, o deslocamento tresloucado num veículo, os tiros dados a esmo (que se repetem até nos dias atuais como em "Serras da Desordem", por exemplo)... – e o "não filme" novamente. "Não filme" na forma de tentativa de uma compreensão linear e dentro do que pregam as cartilhas, porque se há o que se deveria dizer dos trabalhos do diretor é que são realmente cinema ("sim filme"). "Blá Blá Blá" poderia ser "Terra em Transe" de Glauber, poderia ser um dos políticos Godard, mas tem a grande virtude de ser "simplesmente" um legítimo Andrea Tonacci.

---------------


"Bang Bang"


Falando de cinema, um pouco antes, no final da tarde, tive a oportunidade rever após longos anos uma das obras essenciais do essencial diretor - e homenageado pelo evento – Andrea Tonacci: "Bang Bang". Não tem jeito. Passam-se os anos e o filme continua pegando no âmago. Genial em sua "inconcretude", em seu não contar linear, em seu não explicar. Genial porque amparado na figura ímpar de Paulo César Pereio, na voz dele, nas atuações em tom over dos outros personagens desajustados, como alguns outros dos grandes personagens da história dessa arte. Genial porque questiona através de seu processo criativo alguns dos cânones adotados desde o início da existência da arte cinematográfica, seguindo uma tendência revolucionária e questionadora da época – a câmera que aparece refletida no espelho, ou na sombra, ou o cameraman que desce da escada aos olhos de todos, abandonando seu instrumento de trabalho. Por trás de tudo, da dificuldade da análise de uma história, percebe-se que se fala do ser que tem um segredo e é perseguido por isso – e está ai uma grandessíssima metáfora que abrange poder (institucionalizado ou pelas armas) e perseguição. Não há no cinema atual tanta ousadia. Tonacci amadureceu com o passar do tempo e estranha um pouco o seu método, as suas opções, naquele momento (mas, ainda se admira com isso). Hoje em dia, ele realiza um "Serras da Desordem", como se estabelecesse que não há mais nada a ser dito no cinema; filme definitivo (e no qual se percebe aquele Tonacci do início).

quarta-feira, 19 de março de 2008

"Um bom livro, um velho amigo..."



Dentre as coisas boas da vida – certo, excetuando o cinema que é "the best" – dá pra destacar duas como algumas das melhores: a leitura de um bom livro e a conversa franca e desarmada que só se consegue quando travada com um grande amigo. Por vezes percebo inconcebível trocar poucas palavras, que sejam, com pessoas que não têm ou nunca tiveram o hábito da leitura. Fica razoavelmente difícil estabelecer qualquer grau de interesse, ou de atração, em tentativas com pessoas que não consideram um bom livro como um grande companheiro em momentos de isolamento (necessário) ou de buscas diversas. Há muita gente assim. Há muita gente no meu mundo do cinema assim. Mas há uma réplica tão exata quanto inequívoca quando da transposição natural da "simplicidade nas cumplicidades mundanas" – que é boa, mas não pode ser eterna, não se sustenta por si só –, para terrenos que exigem imersão maior, mais verdadeira, (mais erudita?); quando da transposição que se tornará marca indelével no reconhecimento do outro. Surge o abismo. Uma "verdadeira" diferença se estabelece, e o que parecia num início troca similar, se revela casamento de complicado porvir.
Evidente que a manutenção de um amigo que esteja para sempre dentro de importantes patamares, como antigüidade, longevidade, proximidade, deve passar – no meu caso – pela similaridade nos gostos, nos hábitos cultos (cinema, música, outras e o gosto por uma boa leitura, obviamente). Evidente que amizades não são necessariamente ditadas pelo ritmo das letras, mas não tenho casos próximos a mim que duraram sem ao menos algumas boas conversas trocadas referindo livros. Velhos amigos acabam - quando estabelecido que freqüentarão meus anseios e necessidades de contato - por se tornar uma peça chave no nosso desenvolvimento emocional. São aqueles em quem você bota fé pra se abrir em confissão; ou que te fazem se deslocar em meio às maiores dificuldades na tentativa do socorro quando rogado, pedido. Dentre as minhas melhores lembranças estão os momentos "rachados" com esses seres que não se impuseram em minha vida por consanguinidade - já diz um velho dito que os amigos são nossos verdadeiros irmãos, pois são os escolhidos e não os impostos.

Portanto, explicitada a importância que dedico a essas duas coisas, entidades, peças de vida; explicitado que, não por acaso, uma não teria vida longa se não fosse nutrida pelo interesse comum pela outra; explicitado que um velho amigo e um bom livro são coisas que prezo, vou citar um pouco o Kiko. Ricardo Bellissimo para os mais formais, o Kiko é um daqueles amigos que tento preservar - por vezes a duras penas da distância, do apurado e da correria do dia-a-dia - no decorrer desses últimos já muitos anos. Cara bacana, exageradamente cheio de imaginação, rápido nos troca(ga)tilhos, é figura que respeito como irmão optado. Kiko, não por acaso, gosta de um bom livro como poucos - exageradamente, até, como sempre. E Kiko, ainda por cima, escreve livros... Quase surreal.

Quase surreal é o humor dele, que se transporta de modo bastante fluido e nítido, denunciador, às suas conformações estilístico literárias. Quem já leu algum livro seu - ou algum artigo publicado em revistas "underground" - e com ele mantém o hábito do contato comum, não consegue dissociar o texto, da figura física magrela, comprida, de cabelos amarelos e sorriso tanto autêntico quanto infanto/sarcástico. Ele já havia publicado dois livros anteriormente, "Libido Siamesa" e "Sombras e Nefastos", onde demonstrava ostensivamente sua capacidade imaginativa, criativa, fazendo dessas o principal sustentáculo dessas primeiras obras - que tanto se nutriam quanto "pecavam" pelo excesso. Eram tempos de um escritor muito jovem que experimentava e iniciava.

Agora o Kiko (ou Ricardo, como queiram) está lançando seu terceiro trabalho escrito, "Sufoco", que tive a oportunidade de ler já há algum tempinho, ainda não concluído, com erros e formatação de algo que estava em construção, quase terminado, mas ainda não definitivo. Mas já me pareceu então sua obra mais completa, mais adulta, sem os excessos da juventude - mas mantendo o excesso (e bote excesso nisso) da imaginação, da criatividade; atirando certeiramente (com tinta, que é a melhor munição, afinal) em alvos certos, que se escondem atrás de "fachadas". Imagino que o livro tenha sido fechado com todo o vigor que observei naquela primeira leitura, com os pequenos acertos que faltavam, e imagino que visitar o lançamento possa ser uma aventura interessante. Os amigos vão adorar rever a figura; algum incauto que queira arriscar também se surpreenderá positivamente; o escrito deve ser bem bom. Boa sorte pra esse meu velho amigo nessa nova gestação que deve ter gerado um bom livro.

Ah, o lançamento se dará no Bar Café Feira Moderna (rua Fradique Coutinho, 1248), aqui em São Paulo, hoje (19 de março), a partir das 20,OOh.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Uma breve divagação a partir de "O que Refletem Esses Pedaços"




Quem me conhece um pouquinho mais sabe da relação conflituosa que mantenho com o teatro. Sabe da dificuldade que tenho em me fazer flexível quando o modelo exige – bem ao contrário do que acontece quando o "modelo" cinema me pede compreensão. A linguagem do palco me causa um distanciamento que impede tentativas mais ousadas ou generosas de minha parte, fazendo com que creia, sempre e sempre, que assim que as luzes se apagarem caretas exacerbadas tomarão as possibilidades de inflexões faciais mais sutis – a qualquer custo -, vozes anormalmente alteradas e gritalhonas tentarão passar seu recado para uma platéia que pareceria constituída por deficientes auditivos com grande capacidade de leitura labial, e outras "vilanias" mais. Me afasto sem sequer tentar perceber, de maneira racional, que coisas boas devem surgir – ao menos de tempos em tempos - lá por aquelas bandas, e que um algo que seja de capacidade intelectual apreciável deva restar do excesso de auto-endeusamento "culto" que reveste e encarapuça os personagens que lutam e constroem a arte cênica.

Reprovável esse meu comportamento, que infere avaliação negativa a um todo, partindo de poucas experiências. Imaginar que alguém que preze as artes como o grande trunfo humano sobre a existência – sim, imagino mesmo que as artes são a manifestação que nos diferencia totalmente das outras vidas sobre o planeta, a grande diferença, o que nos tira verdadeiramente da simples classificação "humanos" (como uma subdivisão pura e simples, mais uma categoria, do mundo animal), para adjetivá-la com humanidade, por exemplo - possa desprezar o teatro com desdém rançoso e algum rancor mais evidente é, no mínimo, contra sensual. A arte como a principal chave divisora, muito mais do que o dedo polegar opositor, talvez numa proximidade mais real às das conquistas "sociais" egressas dos avanços humanistas; mas as artes com a vantagem do lúdico, que avançam junto com o pensamento e conquistas, que possibilitam o inegável e necessário "descanso" proporcionado pelo sonho - e se estendermos isso vamos parar na construção da psicanálise com sua utilização dos mitos...

Os "teatristas" auto proclamam sua arte como a mãe de todas; talvez tal comportamento de arrogância seja outro fator a me distanciar, me excluir de tentativas de inserção, quanto mais de compreensão. Sendo um cara do cinema como sou, vejo-o (o cinema) como a realização mais complexa e fechada, como a arte "viva" que aglutina um tanto de todas as mais conhecidas e que nos é entregue assepticamente conclusa sem a improbabilidade do erro que se modifique numa segunda visita, ou da virtude (acerto) que possa escorregar numa revisão - tudo isso pela mecânica da execução, pelo ato ou fato que estão lá "impressos" em imagens e sons que não terão como ser modificados, e não pela essência que pode ser alterada através da reavaliação, do repensar naquilo que foi visto, ou do sono que transforma após uma noite dormida sobre o assunto que foi visto na tela; bem entendido.

O propósito de me colocar numa tentativa de discutir algo de teatro e de meu modo de percebê-lo nesse meu blog, que é pra tudo sim, mas que tem a "alma" de um cara que tentará discutir cinema na maior parte do tempo possível, foi a visita redobrada que fiz a um espetáculo teatral, final do ano passado, por convite de uma pessoa querida (Renata Coloni, atriz e uma das produtoras). A peça é "O Que Refletem Esses Pedaços". À época estava sendo encenada no bairro da Penha, São Paulo. A visita num domingo, início de noite, ao bairro vizinho ao meu de origem, o clima de final de ano e o longo tempo distante de alguma apresentação em palco, ao vivo, me motivaram e mexeram com algumas certezas "inabaláveis".

Importante dizer que a peça trata da alma feminina, da essência mais interior, e esse modo de tratamento é obtido através da utilização e reinterpretação de trechos da obra do grande cineasta Ingmar Bergman - falecido ano passado, e homem de teatro, também. Portanto mais um fator de aproximação ao evento (no caso, o do Bergman diretor de cinema). Citei no blog do Cinequanon, após a primeira visita, que ir à Penha, ajuntado ao fato de ser peça que "usava" o diretor sueco, também era coisa de cinema, e aí me pegava - inconscientemente? - tentando fazer parecer qualquer alerta meu a um espetáculo de palco, não como um deslize ante convicções arraigadas, um ceder espaços, mas algo que de alguma forma tinha obrigatoriamente a sétima arte como geradora da opinião, do convite.

Eu mesmo voltei ao teatro no domingo seguinte para rever "O que Refletem Esses Pedaços". Importante dizer que a experiência se fez necessária ante a "possibilidade dupla" que o espetáculo oferece ao público. Há uma divisão no palco, há uma tela (cinema?) que divide as duas atrizes - a outra, a propósito, é Rita Grillo -, há o que seriam "os dois lados do cérebro". Portanto, voltei para ver o "outro" lado. E aí a surpresa que me pega de calças curtas e me faz repensar um tanto o teatro - principalmente na sua comparação ao cinema. Eu não só constatei um outro lado, pura e simplesmente. Constatei uma diferença crucial e interessantíssima entre as duas artes. Havia pequenas e sutis mudanças nas interpretações de um domingo para o outro. Era como perceber que há um jogo que impõe atração extra ao modelo. Diferente do cinema que, mecanicamente, se entrega pronto, o teatro se revelou para mim, como algo que não se "envergonhava" dessa sua imperfeição "humana". Logicamente que isso não foi o suficiente parta me encantar definitivamente por um, descrendo do outro. Acho importantíssima essa capacidade do cinema pensar saber tratar com a perfeição - e isso me agrada demais, até porque se faz manifestação humana (novamente) das mais insólitas essa tentativa. Acho admirável essa ousadia.

Mas compreendi um algo novo na outra arte que me fez passar a vê-la com olhos menos críticos e preconceituosos. Se o seu entorno, se muitos dos que a fazem e a trabalham são de arrogância estranha, ok. Nada mais natural, afinal. Falo desde o início do texto das características diferenciadas da espécie. O fato de ela (a arte teatral) se perceber, se aceitar e se "vangloriar" (a ponto de parecer arrogante) dentro dessas imperfeições; o fato de ela se nutrir delas me desarmou de certa maneira. Certo que falo isso a partir de um espetáculo simples, porém pra lá de sincero; que busca ser forte e incisivo nas suas atitudes, no seu palco, nas suas caretas, nas suas retrações. Coloco esse texto no ar agora por conta da reestréia de "O que Refletem Esses Pedaços" - que tem direção de Nicole Aun (agora num pequeno teatro, espaço de arte, chamado "O Lugar", rua Augusta 325 - tel: 32273324, a partir dia 8 de março, aos sábados e domingos).

Espero que quem o vir venha falar comigo, tente me convencer de que vale a pena continuar a amolecer a alma.
P.S.: para quem quiser mais informações - cáspite, parece até propaganda de divulgação, mas vá lá -: www.myspace.com/psicotoque