Desordem, bang e blá = Tonacci

Ontem estreou aqui em São Paulo um dos grandes trabalhos cinematográficos de todos os tempos. Sem exagero nenhum, posso garantir. Incluindo nessa possibilidade de comparação filmes dos grandes Glauber, Sganzerla, Bressani, Person... Nesse caso, o autor: Andrea Tonacci. Esses alguns que citei (somente a título de ilustração, e sabendo que há mais um tanto de nomes que confeccionaram obras de arte de nível tão superior quanto), mesmo transitando num patamar não tão grande de reconhecimento junto ao grande público, ainda conseguem ser "identificados" por algumas razões extras; mesmo que de raspão, de orelhada, de "ouvi dizer". Já no caso de Tonacci (aliás, italiano de nascimento), beiraria a incompreensão o grau de ignorância quanto à sua existência dentro do mundo da arte caso não fosse quase que opção sua uma espécie de auto-isolamento adotado diante das possibilidades do mundo da informação.
Autor que não está nunca aí para qualquer rigidez de prazos fixos como obrigatoriedade para se manter em evidência, sempre trabalhou num ritmo que lhe possibilitou executar obras para deixá-lo (a si mesmo, principalmente) satisfeito como artista rigoroso. Nunca se deixou "manipular" pelas imposições que o mercado arroga como únicas maneiras (caminhos) de retribuição de reconhecimento maior junto ao "mundo". Além do mais, sua arte é de caráter extremamente particular, coadunando com seu modo de compreender o todo. Seus filmes são "pensadamente" obras inconclusas como pacote a ser identificado. Ele jamais exerce a função do acabamento linear, ou do registro camuflado que faz do cinema arte somente ilusória - deixa transparecerem "pontas técnicas" em seus trabalhos, quando revela microfones, reflexos de câmeras... Para ele é evidente que o cinema pode abraçar linguagens variadas, criar; e isso também se reflete no momento em que, num "Serras da Desordem", qualquer possibilidade de catalogalização por termos definidos (ficção, documentário, animação...) pareça tentativa insana de quem insistir em tentá-la.
Tonacci é o autor que entrega o produto que parece totalmente solto, irregular, equivocado, mas que, ao final, faz perceber que boa parte de sua potência criativa está justamente nesses "enganos". "Serras" é um dos grandes filmes de todos os tempos. Trabalho complexo que demonstra ter sido concretizado como um apanhado geral do que ele havia feito anteriormente.
Só para concluir e deixar nítitido o grau de importância de Andrea, vale lembrar que na edição virtual da revista Paisà em que vários críticos votaram nos melhores 20 filmes brasileiros de todos os tempos (http://www.revistapaisa.com.br/anteriores/ed9/topsbr.shtm), "Bang Bang" e o próprio "Serras da Desordem" marcaram posição - e eu votei em "Blá, Blá, Blá", também. Abaixo coloquei comentários sobre os três filmes - dois resgatados de minha cobertura do Festival de Cuiabá, ano passado, onde o diretor foi homenageado, e um que fiz como parte da matéria da Paisà (completo, como mandei). E vale lembrar que no meu site, o cinequanon, há críticas por conta da estréia do filme, e o resgate de um bela entrevista concedida por ele, no momento em que comemorávamos aniversário e fomos abençoados com a possibilidade da primeira exibição do filme - como o mais belo presente que poderíamos ter recebido.
Autor que não está nunca aí para qualquer rigidez de prazos fixos como obrigatoriedade para se manter em evidência, sempre trabalhou num ritmo que lhe possibilitou executar obras para deixá-lo (a si mesmo, principalmente) satisfeito como artista rigoroso. Nunca se deixou "manipular" pelas imposições que o mercado arroga como únicas maneiras (caminhos) de retribuição de reconhecimento maior junto ao "mundo". Além do mais, sua arte é de caráter extremamente particular, coadunando com seu modo de compreender o todo. Seus filmes são "pensadamente" obras inconclusas como pacote a ser identificado. Ele jamais exerce a função do acabamento linear, ou do registro camuflado que faz do cinema arte somente ilusória - deixa transparecerem "pontas técnicas" em seus trabalhos, quando revela microfones, reflexos de câmeras... Para ele é evidente que o cinema pode abraçar linguagens variadas, criar; e isso também se reflete no momento em que, num "Serras da Desordem", qualquer possibilidade de catalogalização por termos definidos (ficção, documentário, animação...) pareça tentativa insana de quem insistir em tentá-la.
Tonacci é o autor que entrega o produto que parece totalmente solto, irregular, equivocado, mas que, ao final, faz perceber que boa parte de sua potência criativa está justamente nesses "enganos". "Serras" é um dos grandes filmes de todos os tempos. Trabalho complexo que demonstra ter sido concretizado como um apanhado geral do que ele havia feito anteriormente.
Só para concluir e deixar nítitido o grau de importância de Andrea, vale lembrar que na edição virtual da revista Paisà em que vários críticos votaram nos melhores 20 filmes brasileiros de todos os tempos (http://www.revistapaisa.com.br/anteriores/ed9/topsbr.shtm), "Bang Bang" e o próprio "Serras da Desordem" marcaram posição - e eu votei em "Blá, Blá, Blá", também. Abaixo coloquei comentários sobre os três filmes - dois resgatados de minha cobertura do Festival de Cuiabá, ano passado, onde o diretor foi homenageado, e um que fiz como parte da matéria da Paisà (completo, como mandei). E vale lembrar que no meu site, o cinequanon, há críticas por conta da estréia do filme, e o resgate de um bela entrevista concedida por ele, no momento em que comemorávamos aniversário e fomos abençoados com a possibilidade da primeira exibição do filme - como o mais belo presente que poderíamos ter recebido.
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"Serras da Desordem"
Esse é o grande filme do grande diretor que só tinha realizado, até então, grandes e quase desconhecidas obras. Serras, acaba por ser um amontoado dos conhecimentos de Tonacci, da vida dele, do modo que entende e constrói cinema. A carreira do diretor é irregular (se vista por uma constância temporal de produção) e seus filmes deveriam ser definidos como irregularmente geniais. Ousado, optou por fazer da arte uma ferramenta de expressão que anda muito bem sem o rigor do acerto a qualquer custo, invertendo esse conceito radicalmente quando optou por realizar uma outra coisa – vista sob essa ótica do acerto -, que não simplesmente "filme de cinema".
Quando o filme inicia e se estende na mesma e pacata toada por cerca de vinte minutos – mostrando de maneira idílica o modo de vida dos nativos dessa nossa terra -, se faz nítido que Andrea nunca procurou o caminho fácil para a capturar o público. Esse ritmo "natureza" é quebrado abruptamente com a entrada do homem branco em cena, e o estranhamento em relação a todo aquele início só vai acentuando e fazendo com que percebamos que não é de certezas que a obra se nutrirá para se contar. O trem que surge – a modernidade barulhenta e invasiva – remete os personagens aos nossos tempos e às nossas cidades, e o índio (Carapirú) que vagueia por longos anos revela a insanidade que se fez e se faz, ainda, contra os donos por direito dessas paragens.
Sem muitos avisos, de modo fantasticamente irregular, o filme dá guinadas e se revela documentário, se revela obra que cobra "razões", se revela um dos mais sensíveis retratos de nossa história - se revela, nas cenas antigas de uma reportagem, a realidade mais ficcional que se poderia imaginar. Para não falar na última cena, antológica, sem diálogos, e que diz tudo o que precisa ser dito – para que quiser entender.
"Serras da Desordem"
Esse é o grande filme do grande diretor que só tinha realizado, até então, grandes e quase desconhecidas obras. Serras, acaba por ser um amontoado dos conhecimentos de Tonacci, da vida dele, do modo que entende e constrói cinema. A carreira do diretor é irregular (se vista por uma constância temporal de produção) e seus filmes deveriam ser definidos como irregularmente geniais. Ousado, optou por fazer da arte uma ferramenta de expressão que anda muito bem sem o rigor do acerto a qualquer custo, invertendo esse conceito radicalmente quando optou por realizar uma outra coisa – vista sob essa ótica do acerto -, que não simplesmente "filme de cinema".
Quando o filme inicia e se estende na mesma e pacata toada por cerca de vinte minutos – mostrando de maneira idílica o modo de vida dos nativos dessa nossa terra -, se faz nítido que Andrea nunca procurou o caminho fácil para a capturar o público. Esse ritmo "natureza" é quebrado abruptamente com a entrada do homem branco em cena, e o estranhamento em relação a todo aquele início só vai acentuando e fazendo com que percebamos que não é de certezas que a obra se nutrirá para se contar. O trem que surge – a modernidade barulhenta e invasiva – remete os personagens aos nossos tempos e às nossas cidades, e o índio (Carapirú) que vagueia por longos anos revela a insanidade que se fez e se faz, ainda, contra os donos por direito dessas paragens.
Sem muitos avisos, de modo fantasticamente irregular, o filme dá guinadas e se revela documentário, se revela obra que cobra "razões", se revela um dos mais sensíveis retratos de nossa história - se revela, nas cenas antigas de uma reportagem, a realidade mais ficcional que se poderia imaginar. Para não falar na última cena, antológica, sem diálogos, e que diz tudo o que precisa ser dito – para que quiser entender.
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"Blá, Blá, Blá"
Noite de encerramento que se preze teria sempre que passar alguma obra de Andrea Tonacci. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo: daí, qualquer mortal sairia santificado e não notaria que tais eventos podem se estender a mais da conta, mais do que o suportável. Se bem que, no caso aqui de Cuiabá, apesar de estendido (vinte e cinco prêmios distribuídos), muito por conta do apresentador oficial do evento - o divertido, perspicaz e original Julio Bedin – o trajeto percorrido por todo o cerimonial fluiu fácil e com os contratempos necessários para a ocasião. Mas, voltando a falar da verdadeira benção que é a oportunidade de se assistir – após uma eternidade – a um filme como "Blá Blá Blá" (fotos 2,3 e 4)do homenageado diretor: impressionante como Tonacci sempre teve o que dizer com seu cinema. Filme de 1968 – bem dentro dos momentos mais cruéis do regime militar -, sua confecção já seria suficiente, pelo elevado teor político premonitório, para ser considerado como um trabalho a ser registrado como imprescindível em qualquer local do planeta que estivesse passando por momentos tão insanamente humanos. O discurso proferido por um "possuído" Paulo Gracindo beira a genialidade pelo seu conteúdo e, mais ainda, por dizer e desdizer as verdades, por inverter o que seria obviedade na boca de um ditador "família e pátria", com um discurso falsamente manso, conciliador, que, aos poucos, perde essa embalagem de papel frágil, para revelar-se um falar que coaduna com o que se deveria esperar de figura de tal monta. Em contrapartida, há o discurso do que luta pela honra humana, e que é apresentado como agressivo, como o que prega a não compreensão, a não conciliação, num aposto ao anterior, que vai aos poucos fazendo perceber a origem do título, a origem do falar por falar, que não quer dizer nada mesmo – pior, quer não dizer o que acontecerá ao que diz e é mostrado como o intransigente pelo seu blábláblá. Os símbolos de Tonacci estão lá – há os perseguidos, o deslocamento tresloucado num veículo, os tiros dados a esmo (que se repetem até nos dias atuais como em "Serras da Desordem", por exemplo)... – e o "não filme" novamente. "Não filme" na forma de tentativa de uma compreensão linear e dentro do que pregam as cartilhas, porque se há o que se deveria dizer dos trabalhos do diretor é que são realmente cinema ("sim filme"). "Blá Blá Blá" poderia ser "Terra em Transe" de Glauber, poderia ser um dos políticos Godard, mas tem a grande virtude de ser "simplesmente" um legítimo Andrea Tonacci.
Noite de encerramento que se preze teria sempre que passar alguma obra de Andrea Tonacci. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo: daí, qualquer mortal sairia santificado e não notaria que tais eventos podem se estender a mais da conta, mais do que o suportável. Se bem que, no caso aqui de Cuiabá, apesar de estendido (vinte e cinco prêmios distribuídos), muito por conta do apresentador oficial do evento - o divertido, perspicaz e original Julio Bedin – o trajeto percorrido por todo o cerimonial fluiu fácil e com os contratempos necessários para a ocasião. Mas, voltando a falar da verdadeira benção que é a oportunidade de se assistir – após uma eternidade – a um filme como "Blá Blá Blá" (fotos 2,3 e 4)do homenageado diretor: impressionante como Tonacci sempre teve o que dizer com seu cinema. Filme de 1968 – bem dentro dos momentos mais cruéis do regime militar -, sua confecção já seria suficiente, pelo elevado teor político premonitório, para ser considerado como um trabalho a ser registrado como imprescindível em qualquer local do planeta que estivesse passando por momentos tão insanamente humanos. O discurso proferido por um "possuído" Paulo Gracindo beira a genialidade pelo seu conteúdo e, mais ainda, por dizer e desdizer as verdades, por inverter o que seria obviedade na boca de um ditador "família e pátria", com um discurso falsamente manso, conciliador, que, aos poucos, perde essa embalagem de papel frágil, para revelar-se um falar que coaduna com o que se deveria esperar de figura de tal monta. Em contrapartida, há o discurso do que luta pela honra humana, e que é apresentado como agressivo, como o que prega a não compreensão, a não conciliação, num aposto ao anterior, que vai aos poucos fazendo perceber a origem do título, a origem do falar por falar, que não quer dizer nada mesmo – pior, quer não dizer o que acontecerá ao que diz e é mostrado como o intransigente pelo seu blábláblá. Os símbolos de Tonacci estão lá – há os perseguidos, o deslocamento tresloucado num veículo, os tiros dados a esmo (que se repetem até nos dias atuais como em "Serras da Desordem", por exemplo)... – e o "não filme" novamente. "Não filme" na forma de tentativa de uma compreensão linear e dentro do que pregam as cartilhas, porque se há o que se deveria dizer dos trabalhos do diretor é que são realmente cinema ("sim filme"). "Blá Blá Blá" poderia ser "Terra em Transe" de Glauber, poderia ser um dos políticos Godard, mas tem a grande virtude de ser "simplesmente" um legítimo Andrea Tonacci.
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"Bang Bang"
Falando de cinema, um pouco antes, no final da tarde, tive a oportunidade rever após longos anos uma das obras essenciais do essencial diretor - e homenageado pelo evento – Andrea Tonacci: "Bang Bang". Não tem jeito. Passam-se os anos e o filme continua pegando no âmago. Genial em sua "inconcretude", em seu não contar linear, em seu não explicar. Genial porque amparado na figura ímpar de Paulo César Pereio, na voz dele, nas atuações em tom over dos outros personagens desajustados, como alguns outros dos grandes personagens da história dessa arte. Genial porque questiona através de seu processo criativo alguns dos cânones adotados desde o início da existência da arte cinematográfica, seguindo uma tendência revolucionária e questionadora da época – a câmera que aparece refletida no espelho, ou na sombra, ou o cameraman que desce da escada aos olhos de todos, abandonando seu instrumento de trabalho. Por trás de tudo, da dificuldade da análise de uma história, percebe-se que se fala do ser que tem um segredo e é perseguido por isso – e está ai uma grandessíssima metáfora que abrange poder (institucionalizado ou pelas armas) e perseguição. Não há no cinema atual tanta ousadia. Tonacci amadureceu com o passar do tempo e estranha um pouco o seu método, as suas opções, naquele momento (mas, ainda se admira com isso). Hoje em dia, ele realiza um "Serras da Desordem", como se estabelecesse que não há mais nada a ser dito no cinema; filme definitivo (e no qual se percebe aquele Tonacci do início).



