segunda-feira, 28 de abril de 2008

Um Beijo Roubado










Semana passada finalmente fui ver o filme norte-americano do grande Wong Kar-wai. Tô achando estranho um certo exagero na tentativa de alçá-lo como um dos melhores trabalhos do diretor. Putz. Não que seja um trabalho ruim, ou médio que seja. É belo por vários motivos. Mas tem problemas bastante evidentes que me impossibilitam pensá-lo como um dos melhores do diretor. Talvez um dos mais fracos (melhor: dos menos bons), sim, mesmo ainda sendo obra com selo de garantia comparado ao que se faz por aí.

Quando digo que é belo, coloco-o no patamar de beleza que emana naturalmente fácil de "Amor à Flor da Pele" (2000) ou de "2046" (2004) - esses sim, duas verdadeiras obras de arte. O estranho, para mim, é que muitos dos que defendem o filme escorando seu discurso no fato de se emocionarem achando-o lindo, tocante e coisa e tal, desancam "Amor à Flor da Pele". Considero "2046" seu filme mais completo, mais ousado, que fecha o ciclo iniciado em "Dias Selvagens", mas considero também "Amor..." como o mais belo filme de amor realizado nos últimos tempos.

"Um Beijo Roubado" tem a beleza plástica e uma certa insinuação de clima do filme desancado por outros. O seu vigor está justamente na (re)utilização dos trejeitos estéticos do diretor, que ficaram bastante evidenciados e determinantes mais do nunca naquele filme do ano 2000. A aceleração e desaceleração alternadas das velocidades do que se passa no entorno, no cenário, dos personagens está ali. O leve balançar da câmera, as olhadelas furtivas, os saltos de sapato feminino determinando desejos (fetiches?). A insegurança humana ante o amor parceiro - fator karwaiano por excelência das figuras que transitam por seus filmes em busca e na fuga de amores -, a fragilidade e a opção do escape físico (os deslocamentos geográficos sempre se dão em toda sua obra quando a possibilidade - pensada ou não, desejada ou não, muitas vezes ao acaso - da ligação mais forte ao outro toma contornos próximos de concretização), enfim... Há muito de "Amor à Flor da Pele" na opção estética e um sugerir da essência; e quase que somente aí reside a força do filme.

Enquanto em "Amor..." o detalhamento dessas essências humanas é mais introspectivo e corajoso no delinear das dúvidas, em "Um Beijo..." há um cessar de aprofundamentos justamente nas histórias que deveriam interligar os trejeitos (a assinatura) do diretor. Fica quase que assumido que há uma insegurança dele no modo de lidar com os atores dessas interligações - são duas histórias (episódios), mais especificamente, protagonizadas por Frankie Faison (Travis) e Rachel Weisz (Sue Lynne), na primeira, e por Natalie Portman (Leslie) na segunda. Fica quase que assumido que esses entre-trechos necessários de união nasceram mancos, pois vistos e imaginados por alguém que não tem o real domínio das "nuances" americanas. O filme - que mesmo nos seus belos momentos, aqueles que resgatam e utilizam os caminhos chineses do diretor - procura a imersão do estrangeiro que sempre quis reconhecer de perto o que sempre abasteceu o imaginário, e nesse ponto acaba por se aproximar bastante no modo de ver e reproduzir a "América" que assaltou o diretor alemão Win Wenders. O modo de olhar "ampliado", de olhar tudo com um horizonte enorme como pano de fundo; a reverência a algumas instituições como o trem que passa (se bem que em "2046" um trem faz o elo de ligação entre todos os trechos da obra de Wong); a reprodução de uma música executada agora com gaita; o nome Travis para o policial da primeira história de apoio...

Pra mim ficou a imagem de um evento cinematográfico que se faz muito belo quando o diretor transita por suas vias - como se fechasse os olhos e imaginasse Hong Kong, seus cheiros e luzes nubladas, ante os odores de tortas de blueberry e luzes opacidadas por vitrines e neons. Mas me atrapalhou bastante o parecer não saber dar potência aos personagens secundários (protagonistas desses episódios que teriam a função da linearidade num modo de impor história ao que poderia acabar por ser classificado somente como um belo repetir de estilo), e o filme emperrou em minha mente como obra completa. Tanto quanto episódico por opção do diretor, tornou-se episódico na falta de força para constituir-se linha forte para a costura, e me restou na mente como episódico estanque, isto é, como se fossem filmes diferentes aglutinados numa só tacada, para contar uma nova experiência americana, somente imaginada, anteriormente, até então.

Vale alertar definitivamente que a história principal é belíssima, que Jeremy (Jude Law) e Elizabeth (Norah Jones) são emocionantes e, estes sim, universalmente karwaianos, e que o final talvez só pudesse ser imaginado e concretizado por Wong mesmo no cinema atual.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Beatnik


..."Alvah, o seu problema é que você não pratica o seu zazen noturno o bastante, principalmente quando faz frio lá fora, o que é muito melhor, além disso você deveria se casar e ter filhos mestiços, manuscritos, cobertores feitos em casa e leite materno sobre o seu tatame alegre e esfarrapado como este aqui. Arrume uma cabana para morar no mato não muito longe da cidade, gaste pouco para viver, enlouqueça em um bar de vez em quando, escreva e caminhe pelas montanhas e aprenda a serrar tábuas e converse com velhinhas, seu grande tolo, carregue muita madeira para elas, bata palmas em altares, consiga favores sobrenaturais, faça aulas de arranjos florais e plante crisântemos ao lado da porta, e se case peloamordedeus, arrume uma moça humana gentil, inteligente e sensível que não liga para os martinis toda noite nem para todo aquele maquinário branco na cozinha"...


Trecho extraído de "Os Vagabundos Ilmuninados" (Dharma Bums), de Jack Kerouac, em momento de conversa movida a saudável bebedeira. O mundo ameaçou guinadas fantásticas, os beatniks tomaram dianterias inacreditáveis (esse livro, por exemplo, é de 1958), conseguiram criar novos pensamentos e atitudes, modificaram num certo momento os rumos da humanidade, mas hoje em dia parece que todo essa movimentação foi quase em vão. Vivemos instantes da pior globalização; mas ainda existem os livros e as bebidas...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cão Sem Dono, muito melhor do que Jogo de Cena


Juro que já estava inconformado desde o resultado da premiação “Jairo Ferreira”, mas me contive no aguardo do resultado da votação da crítica para o “Festival Sesc dos Melhores de 2008”. E não é que se repetiu o fato? Tanto num como noutro, a verdadeira obra-prima que é o filme “Cão sem Dono” (Beto Brant) acabou superado pelo quase engano que é o pseudo-documentário, “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho). Refiro-me ao inconformismo gerado pela opção dos críticos, no caso. Sei que pode parecer arrogância de minha parte desfazer da opinião de um monte de gente. Sei que pode parecer insanidade atacar qualquer obra que seja do mestre Coutinho.

Mas então vou direto ao quesito insanidade e falo de “Jogo de Cena”. Quem lê o Cinequanon percebe a verdadeira veneração que mantenho quando me refiro ao trabalho de documentarista que realiza Eduardo Coutinho de modo quase incomparável – por conta da reincidência de obras no gênero. Mais: quem me lê pode perceber também que admiro a coragem dele na procura cada vez mais nítida em busca de um elucidar ao grande público que filmes documentais também são gestados com um monte de ferramentas típicas de obras ficcionais – roteiros, por exemplo; edição (logicamente)... Em um trabalho, o documentarista revela sua equipe pagando o cachê combinado com os entrevistados previamente; em outro, parte “sem rumo e sem idéias” ao nordeste, mas revela em entrevista que já tinha todo o trajeto e destino pré-concebidos; e por aí sempre foi, admiravelmente, ele. Só que nesse último, o que resultou nitidamente – para quem quiser ver com clareza e calma – foi um filme de mão pesada, onde o alardeado (e isso se fez necessário via entrevistas) era que se cumpria uma missão quase definitiva na quebra da “pureza” auto-conclamada pelos documentaristas. O filme ficcionaliza de modo bastante ostensivo e proposital o teor jornalístico/informativo e se propõe como a novidade, como o elo diferenciador, e o que consegue é ser obra pesada, sem qualquer razão real a mais do que tentar se inserir como rompedora. Não creio que obras “rompedoras” rompam de modo pré-concebido, e “Jogo de Cena”, com todo seu entorno, me grita o tempo todo ser essa a única razão de sua existência. Pra piorar – ou corroborar com meu inconformismo – todo o auê que se fez e faz sobre o filme é de origem emocional, bastante movido pela entrega das atrizes ao projeto (em entrevistas e afins se mostram bastante tocadas pelo inusitado do proposto), e bastante movido também pelas situações declinadas em textos decorados e depoimentos, com pé bastante afundado no melodramático escancarado que acaba por emocionar platéia (e pelo jeito boa parte da crítica).

Voltando à obra-prima desconsiderada no final das contas, no final dos votos, Beto Brant e seu “Cão Sem Dono” haviam iniciado o ano de nosso cinema com um verdadeiro achado cinematográfico; diria que quase um evento - se entendido que “evento” pode adjetivar também obras que não se pretendem ou se apresentam como grandiosas e ostensivas. O filme surgiu como uma seqüência natural – mas como é difícil a concretização desses caminhos naturais, na maioria das vezes hein? – no caminho do diretor, que vem abdicando do “glamour” e “status” justamente obtidos ao longo de uma carreira bastante correta e de muitos bons resultados, em troca e busca de um autoralismo raramente ousado por outros. “Cão Sem Dono” tem muito a cara do que deveria ser o cinema brasileiro; foi todo construído com a precariedade técnica – escassez de recursos - que se faz companheira quase eterna de nossas produções, e isso como opção dos diretores (jamais esquecer a cumplicidade com Renato Ciasca). A idéia foi a de deslocar o foco cada vez mais buscado pelos nossos realizadores, que recai sobre recursos técnicos e investimentos como as únicas maneiras imaginadas de concretização de trabalhos “decentes”, e direcioná-lo à verdadeira essência de nossa melhor cinematografia – que sempre buscou no “pouco”, nas idéias, na criatividade, a sua força. O filme surgiu num momento de indefinição, num vácuo, e mostrou caminhos com esse seu resgate de nossas entranhas. Além do mais, como obra isolada, é “verdadeiramente” forte, honestamente bom, emocionante até o mais profundo: sem qualquer grito, ou berro, ou esguicho de lágrimas desnecessários. Conforme o ano avançava não via nem um trabalho que pudesse desbancá-lo do degrau de maior do ano. Mas... E estou escrevendo isso me sentindo indignado mesmo.

Para quem tiver mais curiosidade, elucido mais sobre o filme em minha crítica para o site: http://www.cinequanon.art.br/emcartaz_detalhe.php?id=666&num=1