terça-feira, 1 de julho de 2008

Andréa Tonacci emocionando ainda mais uma emocionada Ouro Preto


Um dos motivos de meu "desaparecimento" aqui do blog – somente um deles, bem pequeno em quantidade de tempo ocupado, mas bastante relevante – foi a recém findada mostra de cinema de Ouro Preto (CINEOP). Quem acompanhou pelo nosso site percebeu o entusiasmo que me dominou após o resultado das mesas de debates. Uma das idéias a ser discutida nessas mesas tinha por objetivo contrapor a importância endereçada ao cinema novo e ao cinema marginal (ou udigridi), nos idos da década de 60 - principalmente pelos textos da imprensa e da intelectualidade -, à enxurrada de outras produções que abasteciam as salas com diversidade e forte apelo popular (filmes de terror, resquícios das chanchadas, fitas de ação - utilizando inclusive como protagonistas, por vezes, os ídolos cantores de sucesso na época...). "Ouro Preto" percebeu que quantitativamente esses dois cultuados movimentos representaram muito pouco ante o que se produziu naquele momento por aqui.

Só para citar um ou dois exemplos, Victor Lima (15 filmes) ou J.B. Tanko (com 12) - que nenhuma ligação tiveram ao que ficou "instituído" como a única cara importante da década – são quase que figuras fantasmas junto à massa "comum" que acompanha razoavelmente o cinema nos dias de hoje. Já o ícone mitológico, Glauber Rocha, ou Nelson Pereira dos Santos – estes sim fazendo parte do "inconsciente coletivo" da nação cinefílica, mesmo sem terem tido seus filmes realmente vistos por uma quantidade ínfima que seja dos que os reconhecem – realizaram somente 5 trabalhos cada, enquanto um dos pais do cinema de invenção/marginal/udigrudi, Rogério Sganzerla, naquele momento, não atingiu sequer a cifra de 4 realizações.

A boa percepção de quem fez desse (o número das produções) um dos motes do evento mineiro, foi melhor ainda da "veneta" quando resolveu "bolar" duas mesas com figuras – já aí sim, relativizando de modo bastante superior o que a crítica fez como "a história oficial" - ligadas diretamente a Sganzerla e Glauber (familiares e afins artísticos). Essa mesma "intelectualidade crítica/jornalística" que fez dos dois duas das "únicas" figuras de então a serem lembradas como "representantes inequívocos do período", acabou antepondo-os como inimigos quase ferrenhos, que teriam se alfinetado até sangrar, e a seus respectivos movimentos cinematográficos, e também se odiado, até por motivos "bíblicos" - no caso da evocação ao livro que relata a história humana sob o prisma de um Deus, vale lembrar que existiu (existe ainda, aliás) Helena Ignez entre os dois: mulher de Galuber e de Saganzerla na seqüência, mãe de filhos de ambos, musa de seus filmes... A intenção dos idealizadores (muito, principalmente, do curador Cleber Eduardo) das mesas era não a contrapartida pura e simplista ao que é tido como a história oficial – não se queria em Ouro Preto desmistificar as brigas, as diferenças culturais, os momentos. A idéia era a possibilidade da discussão tète-a-tète dos envolvidos mais diretamente - já que os dois cineastas mesmo já não se encontram por aqui.

O que resultou dos debates mais específicos - principalmente do antológico primeiro deles (o de domingo) - pode ser conferido por quem tiver um pouco mais de paciência nas coberturas dos veículos virtuais que estiveram por lá: Revista Cinética, Contracampo, Revista Paisá, Filmes Polvo, e o nosso aqui, o Cinequanon. Esse post calha muito mais a propósito para que eu indique a transcrição quase integral do melhor momento, entre os grandes e memoráveis, que foi a fala especialíssima do genial e já quase não terráqueo, Andréa Tonacci: emocionante, pertinente, contundente, sincero, engraçado... Tal transcrição foi um trabalho de fôlego do amigo Rodrigo Oliveira - crítico enviado da Contracampo. Trabalho que, confesso, não tenho normalmente paciência para executar. Pra sorte de todos o Rodrigo teve tal paciência. É só ler, aproveitar e lamentar - para quem não esteve - o azar de não ter estado por lá.

O link: http://www.contracampo.com.br/91/pgcineop06.htm

P.S.: segunda vez que "posto" Tonacci nesse meu blog tão novo de vida ainda. Qualidade garantida.

2 Comentários:

Às 2 de julho de 2008 às 14:47 , Anonymous Anônimo disse...

Cid,

Tudo bem?

O que pensa sobre a projeção em digital nas salas de cinema do Brasil?

Um abraço.

 
Às 19 de julho de 2008 às 12:01 , Blogger Cid Nader disse...

Oi Leonardo. Putz, nem tinha visto esse teu comentário. Mas foi até bom, porque agora posso respondê-lo após ter presenciado as exibições do Festival de Paulínia, feitas pela RAIN, com projetor 2k. Isso resume e simplifica uma resposta que teria se estendido, antes, em busca de compreensão. O que acontece, Brasil afora, é uma falta de respeito, pois os cinemas estão equipados com projetores digitais de menor capacidade - daí a reclamarmos sobre as impossibilidades do digital comparado à película e tal: um passo fácil de ser dado. Quando tive a possibilidade de ver essa projeção em 2k, consegui perceber profundidade, textura - alguém citou ter notado até 4 níveis de profundidade (quando o que presenciamos normalmente, são imagens chapadas) - definição melhor de cores e de traços (as letras dos créditos eram legíveis e sem tremores). Dizem que na Europa e nos EUA já existem projeções em 4k (dizem).

Resumo: que parem de nos enrolar e tragam o que há de melhor para cá - até porque pagamos ingresso caro por aqui (comparado aos nossos salários, talvez o ingresso mais caro do mundo).

Resumo (2): isso não quer dizer que a película já tem substituto à altura. Somente um concorrente com um pouco mais de gabarito, ok?

Abraço.

 

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