quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cão Sem Dono, muito melhor do que Jogo de Cena


Juro que já estava inconformado desde o resultado da premiação “Jairo Ferreira”, mas me contive no aguardo do resultado da votação da crítica para o “Festival Sesc dos Melhores de 2008”. E não é que se repetiu o fato? Tanto num como noutro, a verdadeira obra-prima que é o filme “Cão sem Dono” (Beto Brant) acabou superado pelo quase engano que é o pseudo-documentário, “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho). Refiro-me ao inconformismo gerado pela opção dos críticos, no caso. Sei que pode parecer arrogância de minha parte desfazer da opinião de um monte de gente. Sei que pode parecer insanidade atacar qualquer obra que seja do mestre Coutinho.

Mas então vou direto ao quesito insanidade e falo de “Jogo de Cena”. Quem lê o Cinequanon percebe a verdadeira veneração que mantenho quando me refiro ao trabalho de documentarista que realiza Eduardo Coutinho de modo quase incomparável – por conta da reincidência de obras no gênero. Mais: quem me lê pode perceber também que admiro a coragem dele na procura cada vez mais nítida em busca de um elucidar ao grande público que filmes documentais também são gestados com um monte de ferramentas típicas de obras ficcionais – roteiros, por exemplo; edição (logicamente)... Em um trabalho, o documentarista revela sua equipe pagando o cachê combinado com os entrevistados previamente; em outro, parte “sem rumo e sem idéias” ao nordeste, mas revela em entrevista que já tinha todo o trajeto e destino pré-concebidos; e por aí sempre foi, admiravelmente, ele. Só que nesse último, o que resultou nitidamente – para quem quiser ver com clareza e calma – foi um filme de mão pesada, onde o alardeado (e isso se fez necessário via entrevistas) era que se cumpria uma missão quase definitiva na quebra da “pureza” auto-conclamada pelos documentaristas. O filme ficcionaliza de modo bastante ostensivo e proposital o teor jornalístico/informativo e se propõe como a novidade, como o elo diferenciador, e o que consegue é ser obra pesada, sem qualquer razão real a mais do que tentar se inserir como rompedora. Não creio que obras “rompedoras” rompam de modo pré-concebido, e “Jogo de Cena”, com todo seu entorno, me grita o tempo todo ser essa a única razão de sua existência. Pra piorar – ou corroborar com meu inconformismo – todo o auê que se fez e faz sobre o filme é de origem emocional, bastante movido pela entrega das atrizes ao projeto (em entrevistas e afins se mostram bastante tocadas pelo inusitado do proposto), e bastante movido também pelas situações declinadas em textos decorados e depoimentos, com pé bastante afundado no melodramático escancarado que acaba por emocionar platéia (e pelo jeito boa parte da crítica).

Voltando à obra-prima desconsiderada no final das contas, no final dos votos, Beto Brant e seu “Cão Sem Dono” haviam iniciado o ano de nosso cinema com um verdadeiro achado cinematográfico; diria que quase um evento - se entendido que “evento” pode adjetivar também obras que não se pretendem ou se apresentam como grandiosas e ostensivas. O filme surgiu como uma seqüência natural – mas como é difícil a concretização desses caminhos naturais, na maioria das vezes hein? – no caminho do diretor, que vem abdicando do “glamour” e “status” justamente obtidos ao longo de uma carreira bastante correta e de muitos bons resultados, em troca e busca de um autoralismo raramente ousado por outros. “Cão Sem Dono” tem muito a cara do que deveria ser o cinema brasileiro; foi todo construído com a precariedade técnica – escassez de recursos - que se faz companheira quase eterna de nossas produções, e isso como opção dos diretores (jamais esquecer a cumplicidade com Renato Ciasca). A idéia foi a de deslocar o foco cada vez mais buscado pelos nossos realizadores, que recai sobre recursos técnicos e investimentos como as únicas maneiras imaginadas de concretização de trabalhos “decentes”, e direcioná-lo à verdadeira essência de nossa melhor cinematografia – que sempre buscou no “pouco”, nas idéias, na criatividade, a sua força. O filme surgiu num momento de indefinição, num vácuo, e mostrou caminhos com esse seu resgate de nossas entranhas. Além do mais, como obra isolada, é “verdadeiramente” forte, honestamente bom, emocionante até o mais profundo: sem qualquer grito, ou berro, ou esguicho de lágrimas desnecessários. Conforme o ano avançava não via nem um trabalho que pudesse desbancá-lo do degrau de maior do ano. Mas... E estou escrevendo isso me sentindo indignado mesmo.

Para quem tiver mais curiosidade, elucido mais sobre o filme em minha crítica para o site: http://www.cinequanon.art.br/emcartaz_detalhe.php?id=666&num=1

3 Comentários:

Às 11 de abril de 2008 às 10:16 , Anonymous Anônimo disse...

Cid, não tire os méritos do Jogo de cena... Mas Cão Sem Dono é realmente muito melhor.. bj

 
Às 11 de abril de 2008 às 10:38 , Blogger Cid Nader disse...

Tainá. Você tem até razão no caso de méritos do trabalho do Coutinho - impossível pensar no mestre errando totalmente a mão. É que meu post foi de indignação quanto ao "esquecimento" de "Cão" em duas premiações que prezo demais. Dai a virulência no ataque ao "Jogo" - de qualquer modo, equivocado; de qualquer modo não execrável.
Bj

 
Às 3 de fevereiro de 2017 às 09:51 , Anonymous Gamedesire disse...

O treinamento do cão é o processo de ensinar um cão para executar determinadas ações em resposta a determinados comandos que o cão é treinado para compreender. Treinar o seu cão é algo a ser planejado na primeira oportunidade.

 

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