terça-feira, 15 de julho de 2008

Matando a cobra e mostrando o leão










Terminado o Festival de Paulínia, duas coisas rápidas para comentar aqui no blog. Uma delas é a mania de alguns companheiros de crítica tentando invalidar, eternamente, algumas opiniões discordantes, com "superioridade e arrogância" ditadas pelo fato de trabalharem em grandes veículos de imprensa. O fato de alguém não ter se impressionado tanto com o novo filme do José Mojica (Zé do Caixão), "Encarnação do Demônio", não deveria ser suficiente para tentar colocar todos os que gostaram num mesmo barco. Sei que esses poderosos pensam que esses outros que exercem sua função em alguns veículos da internet - e citaria mais especificamente a Revista Paisà, a Cinética e a Contracampo, além do caçula Filmes Polvo e o meu site, o Cinequanon - andam e agem como adoradores sempre dos mesmos cineastas. Daí, passam a colocar em dúvida opiniões e gostos. Burrice, medo, mau-caratismo, tacanhice... Mais especificamente, no caso do filme do Zé do Caixão, colocam em dúvida as qualidades cinematográficas do trabalho, tentando enxergar nos que gostaram, cultuamento cego e impensado. Só parta citar: o filme tem diálogos e humor pra lá de bem bolados, trabalho de montagem impecável (raro ver algum produto nosso tão bem editado atualmente), terror que remexe no mais profundo de nosso âmago (desde o psicológico, até o que causa mal estar físico), fotografia e iluminação que beiram a raridade (penso agora na cena que inicia o filme - no corredor da prisão, com policiais apavorados - ou na que o encerra, só para citar dois entre inúmeros exemplos), e uma transposição da intenção original (filme que já estava escrito há 40 anos) para os tempos atuais, sem solavancos e imperceptível, tremendamente bem executada. Não gostar: normal. O anormal é, sempre e sempre - de modo cada vez mais amedrontado e ao mesmo tempo agressivo -, deslegitimar nossas opiniões. Lembrando, também, que não somos somente um ser, e seria justo tentar deslegitimar opinião a opinião.

A outra coisa a comentar é sobre a historinha do leão que contei no meu diário de Paulínia. Rendeu muito. Recebi emails e telefonemas quando deixei no ar somente a surpresa do que viria à frente - que, no final, era de solução simples, quase anticatártica. Para provar com dados mais concretos, reproduzi aí em cima as fotos que a Angélica Bito tirou e cedeu. Batidas na visita amalucada que fizemos ao Zôo, junto com o Chiko Guranieri e o Henrique Bastos, recheada de comentários infames e piadas dos mais variados gostos - a ponto de o novato Henrique perguntar, assustado e quase morrendo de dor, de tanto rir, se nós éramos sempre assim... A Angélica também era novata nesse quesito. Mas foi muito bacana a visita, e necessária.
Foto1: o próprio leão
Foto2: eu, Henrique e Chiko (da esquerda para a direita)
Foto3: dona leoa (como disse Angélica Bito que, abnegadamante, ficou por trás da lente)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Andréa Tonacci emocionando ainda mais uma emocionada Ouro Preto


Um dos motivos de meu "desaparecimento" aqui do blog – somente um deles, bem pequeno em quantidade de tempo ocupado, mas bastante relevante – foi a recém findada mostra de cinema de Ouro Preto (CINEOP). Quem acompanhou pelo nosso site percebeu o entusiasmo que me dominou após o resultado das mesas de debates. Uma das idéias a ser discutida nessas mesas tinha por objetivo contrapor a importância endereçada ao cinema novo e ao cinema marginal (ou udigridi), nos idos da década de 60 - principalmente pelos textos da imprensa e da intelectualidade -, à enxurrada de outras produções que abasteciam as salas com diversidade e forte apelo popular (filmes de terror, resquícios das chanchadas, fitas de ação - utilizando inclusive como protagonistas, por vezes, os ídolos cantores de sucesso na época...). "Ouro Preto" percebeu que quantitativamente esses dois cultuados movimentos representaram muito pouco ante o que se produziu naquele momento por aqui.

Só para citar um ou dois exemplos, Victor Lima (15 filmes) ou J.B. Tanko (com 12) - que nenhuma ligação tiveram ao que ficou "instituído" como a única cara importante da década – são quase que figuras fantasmas junto à massa "comum" que acompanha razoavelmente o cinema nos dias de hoje. Já o ícone mitológico, Glauber Rocha, ou Nelson Pereira dos Santos – estes sim fazendo parte do "inconsciente coletivo" da nação cinefílica, mesmo sem terem tido seus filmes realmente vistos por uma quantidade ínfima que seja dos que os reconhecem – realizaram somente 5 trabalhos cada, enquanto um dos pais do cinema de invenção/marginal/udigrudi, Rogério Sganzerla, naquele momento, não atingiu sequer a cifra de 4 realizações.

A boa percepção de quem fez desse (o número das produções) um dos motes do evento mineiro, foi melhor ainda da "veneta" quando resolveu "bolar" duas mesas com figuras – já aí sim, relativizando de modo bastante superior o que a crítica fez como "a história oficial" - ligadas diretamente a Sganzerla e Glauber (familiares e afins artísticos). Essa mesma "intelectualidade crítica/jornalística" que fez dos dois duas das "únicas" figuras de então a serem lembradas como "representantes inequívocos do período", acabou antepondo-os como inimigos quase ferrenhos, que teriam se alfinetado até sangrar, e a seus respectivos movimentos cinematográficos, e também se odiado, até por motivos "bíblicos" - no caso da evocação ao livro que relata a história humana sob o prisma de um Deus, vale lembrar que existiu (existe ainda, aliás) Helena Ignez entre os dois: mulher de Galuber e de Saganzerla na seqüência, mãe de filhos de ambos, musa de seus filmes... A intenção dos idealizadores (muito, principalmente, do curador Cleber Eduardo) das mesas era não a contrapartida pura e simplista ao que é tido como a história oficial – não se queria em Ouro Preto desmistificar as brigas, as diferenças culturais, os momentos. A idéia era a possibilidade da discussão tète-a-tète dos envolvidos mais diretamente - já que os dois cineastas mesmo já não se encontram por aqui.

O que resultou dos debates mais específicos - principalmente do antológico primeiro deles (o de domingo) - pode ser conferido por quem tiver um pouco mais de paciência nas coberturas dos veículos virtuais que estiveram por lá: Revista Cinética, Contracampo, Revista Paisá, Filmes Polvo, e o nosso aqui, o Cinequanon. Esse post calha muito mais a propósito para que eu indique a transcrição quase integral do melhor momento, entre os grandes e memoráveis, que foi a fala especialíssima do genial e já quase não terráqueo, Andréa Tonacci: emocionante, pertinente, contundente, sincero, engraçado... Tal transcrição foi um trabalho de fôlego do amigo Rodrigo Oliveira - crítico enviado da Contracampo. Trabalho que, confesso, não tenho normalmente paciência para executar. Pra sorte de todos o Rodrigo teve tal paciência. É só ler, aproveitar e lamentar - para quem não esteve - o azar de não ter estado por lá.

O link: http://www.contracampo.com.br/91/pgcineop06.htm

P.S.: segunda vez que "posto" Tonacci nesse meu blog tão novo de vida ainda. Qualidade garantida.