terça-feira, 15 de julho de 2008

Matando a cobra e mostrando o leão










Terminado o Festival de Paulínia, duas coisas rápidas para comentar aqui no blog. Uma delas é a mania de alguns companheiros de crítica tentando invalidar, eternamente, algumas opiniões discordantes, com "superioridade e arrogância" ditadas pelo fato de trabalharem em grandes veículos de imprensa. O fato de alguém não ter se impressionado tanto com o novo filme do José Mojica (Zé do Caixão), "Encarnação do Demônio", não deveria ser suficiente para tentar colocar todos os que gostaram num mesmo barco. Sei que esses poderosos pensam que esses outros que exercem sua função em alguns veículos da internet - e citaria mais especificamente a Revista Paisà, a Cinética e a Contracampo, além do caçula Filmes Polvo e o meu site, o Cinequanon - andam e agem como adoradores sempre dos mesmos cineastas. Daí, passam a colocar em dúvida opiniões e gostos. Burrice, medo, mau-caratismo, tacanhice... Mais especificamente, no caso do filme do Zé do Caixão, colocam em dúvida as qualidades cinematográficas do trabalho, tentando enxergar nos que gostaram, cultuamento cego e impensado. Só parta citar: o filme tem diálogos e humor pra lá de bem bolados, trabalho de montagem impecável (raro ver algum produto nosso tão bem editado atualmente), terror que remexe no mais profundo de nosso âmago (desde o psicológico, até o que causa mal estar físico), fotografia e iluminação que beiram a raridade (penso agora na cena que inicia o filme - no corredor da prisão, com policiais apavorados - ou na que o encerra, só para citar dois entre inúmeros exemplos), e uma transposição da intenção original (filme que já estava escrito há 40 anos) para os tempos atuais, sem solavancos e imperceptível, tremendamente bem executada. Não gostar: normal. O anormal é, sempre e sempre - de modo cada vez mais amedrontado e ao mesmo tempo agressivo -, deslegitimar nossas opiniões. Lembrando, também, que não somos somente um ser, e seria justo tentar deslegitimar opinião a opinião.

A outra coisa a comentar é sobre a historinha do leão que contei no meu diário de Paulínia. Rendeu muito. Recebi emails e telefonemas quando deixei no ar somente a surpresa do que viria à frente - que, no final, era de solução simples, quase anticatártica. Para provar com dados mais concretos, reproduzi aí em cima as fotos que a Angélica Bito tirou e cedeu. Batidas na visita amalucada que fizemos ao Zôo, junto com o Chiko Guranieri e o Henrique Bastos, recheada de comentários infames e piadas dos mais variados gostos - a ponto de o novato Henrique perguntar, assustado e quase morrendo de dor, de tanto rir, se nós éramos sempre assim... A Angélica também era novata nesse quesito. Mas foi muito bacana a visita, e necessária.
Foto1: o próprio leão
Foto2: eu, Henrique e Chiko (da esquerda para a direita)
Foto3: dona leoa (como disse Angélica Bito que, abnegadamante, ficou por trás da lente)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Andréa Tonacci emocionando ainda mais uma emocionada Ouro Preto


Um dos motivos de meu "desaparecimento" aqui do blog – somente um deles, bem pequeno em quantidade de tempo ocupado, mas bastante relevante – foi a recém findada mostra de cinema de Ouro Preto (CINEOP). Quem acompanhou pelo nosso site percebeu o entusiasmo que me dominou após o resultado das mesas de debates. Uma das idéias a ser discutida nessas mesas tinha por objetivo contrapor a importância endereçada ao cinema novo e ao cinema marginal (ou udigridi), nos idos da década de 60 - principalmente pelos textos da imprensa e da intelectualidade -, à enxurrada de outras produções que abasteciam as salas com diversidade e forte apelo popular (filmes de terror, resquícios das chanchadas, fitas de ação - utilizando inclusive como protagonistas, por vezes, os ídolos cantores de sucesso na época...). "Ouro Preto" percebeu que quantitativamente esses dois cultuados movimentos representaram muito pouco ante o que se produziu naquele momento por aqui.

Só para citar um ou dois exemplos, Victor Lima (15 filmes) ou J.B. Tanko (com 12) - que nenhuma ligação tiveram ao que ficou "instituído" como a única cara importante da década – são quase que figuras fantasmas junto à massa "comum" que acompanha razoavelmente o cinema nos dias de hoje. Já o ícone mitológico, Glauber Rocha, ou Nelson Pereira dos Santos – estes sim fazendo parte do "inconsciente coletivo" da nação cinefílica, mesmo sem terem tido seus filmes realmente vistos por uma quantidade ínfima que seja dos que os reconhecem – realizaram somente 5 trabalhos cada, enquanto um dos pais do cinema de invenção/marginal/udigrudi, Rogério Sganzerla, naquele momento, não atingiu sequer a cifra de 4 realizações.

A boa percepção de quem fez desse (o número das produções) um dos motes do evento mineiro, foi melhor ainda da "veneta" quando resolveu "bolar" duas mesas com figuras – já aí sim, relativizando de modo bastante superior o que a crítica fez como "a história oficial" - ligadas diretamente a Sganzerla e Glauber (familiares e afins artísticos). Essa mesma "intelectualidade crítica/jornalística" que fez dos dois duas das "únicas" figuras de então a serem lembradas como "representantes inequívocos do período", acabou antepondo-os como inimigos quase ferrenhos, que teriam se alfinetado até sangrar, e a seus respectivos movimentos cinematográficos, e também se odiado, até por motivos "bíblicos" - no caso da evocação ao livro que relata a história humana sob o prisma de um Deus, vale lembrar que existiu (existe ainda, aliás) Helena Ignez entre os dois: mulher de Galuber e de Saganzerla na seqüência, mãe de filhos de ambos, musa de seus filmes... A intenção dos idealizadores (muito, principalmente, do curador Cleber Eduardo) das mesas era não a contrapartida pura e simplista ao que é tido como a história oficial – não se queria em Ouro Preto desmistificar as brigas, as diferenças culturais, os momentos. A idéia era a possibilidade da discussão tète-a-tète dos envolvidos mais diretamente - já que os dois cineastas mesmo já não se encontram por aqui.

O que resultou dos debates mais específicos - principalmente do antológico primeiro deles (o de domingo) - pode ser conferido por quem tiver um pouco mais de paciência nas coberturas dos veículos virtuais que estiveram por lá: Revista Cinética, Contracampo, Revista Paisá, Filmes Polvo, e o nosso aqui, o Cinequanon. Esse post calha muito mais a propósito para que eu indique a transcrição quase integral do melhor momento, entre os grandes e memoráveis, que foi a fala especialíssima do genial e já quase não terráqueo, Andréa Tonacci: emocionante, pertinente, contundente, sincero, engraçado... Tal transcrição foi um trabalho de fôlego do amigo Rodrigo Oliveira - crítico enviado da Contracampo. Trabalho que, confesso, não tenho normalmente paciência para executar. Pra sorte de todos o Rodrigo teve tal paciência. É só ler, aproveitar e lamentar - para quem não esteve - o azar de não ter estado por lá.

O link: http://www.contracampo.com.br/91/pgcineop06.htm

P.S.: segunda vez que "posto" Tonacci nesse meu blog tão novo de vida ainda. Qualidade garantida.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ando meio desligado...


Este post é só para dar fé, a quem possivelmente entra no blog à procura de novidades ou afins, de que ainda estou vivo. Ao menos - pensando dentro de parâmetros que instituímos razoáveis com o avanço das civilizações e de nossa história como espécie diferenciada -, ainda acordo e vejo meus pés se mexendo; olho no espelho e ainda me assusto; tenho dor nas costas; curto o cafezinho que tomo após o banho.

Viajei, metafórica e literalmente, muito ultimamente, e isso caiu como a chance aguardada pelo lado mais vagabundo, digamos assim, que insiste em se manifestar como dominador de meus desejos e anseios. Voltarei a escrever aqui - pode ser até que reinicie amanhã - com um certo rigor nos prazos. Por enquanto o faço para que não me abandonem os que crêem que "vida" é constatada via respiração, via pupilas brilhantes, via mexer dos artelhos e alguns "ais" emitidos por conta de dores esporádicas.

Até breve.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Um Beijo Roubado










Semana passada finalmente fui ver o filme norte-americano do grande Wong Kar-wai. Tô achando estranho um certo exagero na tentativa de alçá-lo como um dos melhores trabalhos do diretor. Putz. Não que seja um trabalho ruim, ou médio que seja. É belo por vários motivos. Mas tem problemas bastante evidentes que me impossibilitam pensá-lo como um dos melhores do diretor. Talvez um dos mais fracos (melhor: dos menos bons), sim, mesmo ainda sendo obra com selo de garantia comparado ao que se faz por aí.

Quando digo que é belo, coloco-o no patamar de beleza que emana naturalmente fácil de "Amor à Flor da Pele" (2000) ou de "2046" (2004) - esses sim, duas verdadeiras obras de arte. O estranho, para mim, é que muitos dos que defendem o filme escorando seu discurso no fato de se emocionarem achando-o lindo, tocante e coisa e tal, desancam "Amor à Flor da Pele". Considero "2046" seu filme mais completo, mais ousado, que fecha o ciclo iniciado em "Dias Selvagens", mas considero também "Amor..." como o mais belo filme de amor realizado nos últimos tempos.

"Um Beijo Roubado" tem a beleza plástica e uma certa insinuação de clima do filme desancado por outros. O seu vigor está justamente na (re)utilização dos trejeitos estéticos do diretor, que ficaram bastante evidenciados e determinantes mais do nunca naquele filme do ano 2000. A aceleração e desaceleração alternadas das velocidades do que se passa no entorno, no cenário, dos personagens está ali. O leve balançar da câmera, as olhadelas furtivas, os saltos de sapato feminino determinando desejos (fetiches?). A insegurança humana ante o amor parceiro - fator karwaiano por excelência das figuras que transitam por seus filmes em busca e na fuga de amores -, a fragilidade e a opção do escape físico (os deslocamentos geográficos sempre se dão em toda sua obra quando a possibilidade - pensada ou não, desejada ou não, muitas vezes ao acaso - da ligação mais forte ao outro toma contornos próximos de concretização), enfim... Há muito de "Amor à Flor da Pele" na opção estética e um sugerir da essência; e quase que somente aí reside a força do filme.

Enquanto em "Amor..." o detalhamento dessas essências humanas é mais introspectivo e corajoso no delinear das dúvidas, em "Um Beijo..." há um cessar de aprofundamentos justamente nas histórias que deveriam interligar os trejeitos (a assinatura) do diretor. Fica quase que assumido que há uma insegurança dele no modo de lidar com os atores dessas interligações - são duas histórias (episódios), mais especificamente, protagonizadas por Frankie Faison (Travis) e Rachel Weisz (Sue Lynne), na primeira, e por Natalie Portman (Leslie) na segunda. Fica quase que assumido que esses entre-trechos necessários de união nasceram mancos, pois vistos e imaginados por alguém que não tem o real domínio das "nuances" americanas. O filme - que mesmo nos seus belos momentos, aqueles que resgatam e utilizam os caminhos chineses do diretor - procura a imersão do estrangeiro que sempre quis reconhecer de perto o que sempre abasteceu o imaginário, e nesse ponto acaba por se aproximar bastante no modo de ver e reproduzir a "América" que assaltou o diretor alemão Win Wenders. O modo de olhar "ampliado", de olhar tudo com um horizonte enorme como pano de fundo; a reverência a algumas instituições como o trem que passa (se bem que em "2046" um trem faz o elo de ligação entre todos os trechos da obra de Wong); a reprodução de uma música executada agora com gaita; o nome Travis para o policial da primeira história de apoio...

Pra mim ficou a imagem de um evento cinematográfico que se faz muito belo quando o diretor transita por suas vias - como se fechasse os olhos e imaginasse Hong Kong, seus cheiros e luzes nubladas, ante os odores de tortas de blueberry e luzes opacidadas por vitrines e neons. Mas me atrapalhou bastante o parecer não saber dar potência aos personagens secundários (protagonistas desses episódios que teriam a função da linearidade num modo de impor história ao que poderia acabar por ser classificado somente como um belo repetir de estilo), e o filme emperrou em minha mente como obra completa. Tanto quanto episódico por opção do diretor, tornou-se episódico na falta de força para constituir-se linha forte para a costura, e me restou na mente como episódico estanque, isto é, como se fossem filmes diferentes aglutinados numa só tacada, para contar uma nova experiência americana, somente imaginada, anteriormente, até então.

Vale alertar definitivamente que a história principal é belíssima, que Jeremy (Jude Law) e Elizabeth (Norah Jones) são emocionantes e, estes sim, universalmente karwaianos, e que o final talvez só pudesse ser imaginado e concretizado por Wong mesmo no cinema atual.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Beatnik


..."Alvah, o seu problema é que você não pratica o seu zazen noturno o bastante, principalmente quando faz frio lá fora, o que é muito melhor, além disso você deveria se casar e ter filhos mestiços, manuscritos, cobertores feitos em casa e leite materno sobre o seu tatame alegre e esfarrapado como este aqui. Arrume uma cabana para morar no mato não muito longe da cidade, gaste pouco para viver, enlouqueça em um bar de vez em quando, escreva e caminhe pelas montanhas e aprenda a serrar tábuas e converse com velhinhas, seu grande tolo, carregue muita madeira para elas, bata palmas em altares, consiga favores sobrenaturais, faça aulas de arranjos florais e plante crisântemos ao lado da porta, e se case peloamordedeus, arrume uma moça humana gentil, inteligente e sensível que não liga para os martinis toda noite nem para todo aquele maquinário branco na cozinha"...


Trecho extraído de "Os Vagabundos Ilmuninados" (Dharma Bums), de Jack Kerouac, em momento de conversa movida a saudável bebedeira. O mundo ameaçou guinadas fantásticas, os beatniks tomaram dianterias inacreditáveis (esse livro, por exemplo, é de 1958), conseguiram criar novos pensamentos e atitudes, modificaram num certo momento os rumos da humanidade, mas hoje em dia parece que todo essa movimentação foi quase em vão. Vivemos instantes da pior globalização; mas ainda existem os livros e as bebidas...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cão Sem Dono, muito melhor do que Jogo de Cena


Juro que já estava inconformado desde o resultado da premiação “Jairo Ferreira”, mas me contive no aguardo do resultado da votação da crítica para o “Festival Sesc dos Melhores de 2008”. E não é que se repetiu o fato? Tanto num como noutro, a verdadeira obra-prima que é o filme “Cão sem Dono” (Beto Brant) acabou superado pelo quase engano que é o pseudo-documentário, “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho). Refiro-me ao inconformismo gerado pela opção dos críticos, no caso. Sei que pode parecer arrogância de minha parte desfazer da opinião de um monte de gente. Sei que pode parecer insanidade atacar qualquer obra que seja do mestre Coutinho.

Mas então vou direto ao quesito insanidade e falo de “Jogo de Cena”. Quem lê o Cinequanon percebe a verdadeira veneração que mantenho quando me refiro ao trabalho de documentarista que realiza Eduardo Coutinho de modo quase incomparável – por conta da reincidência de obras no gênero. Mais: quem me lê pode perceber também que admiro a coragem dele na procura cada vez mais nítida em busca de um elucidar ao grande público que filmes documentais também são gestados com um monte de ferramentas típicas de obras ficcionais – roteiros, por exemplo; edição (logicamente)... Em um trabalho, o documentarista revela sua equipe pagando o cachê combinado com os entrevistados previamente; em outro, parte “sem rumo e sem idéias” ao nordeste, mas revela em entrevista que já tinha todo o trajeto e destino pré-concebidos; e por aí sempre foi, admiravelmente, ele. Só que nesse último, o que resultou nitidamente – para quem quiser ver com clareza e calma – foi um filme de mão pesada, onde o alardeado (e isso se fez necessário via entrevistas) era que se cumpria uma missão quase definitiva na quebra da “pureza” auto-conclamada pelos documentaristas. O filme ficcionaliza de modo bastante ostensivo e proposital o teor jornalístico/informativo e se propõe como a novidade, como o elo diferenciador, e o que consegue é ser obra pesada, sem qualquer razão real a mais do que tentar se inserir como rompedora. Não creio que obras “rompedoras” rompam de modo pré-concebido, e “Jogo de Cena”, com todo seu entorno, me grita o tempo todo ser essa a única razão de sua existência. Pra piorar – ou corroborar com meu inconformismo – todo o auê que se fez e faz sobre o filme é de origem emocional, bastante movido pela entrega das atrizes ao projeto (em entrevistas e afins se mostram bastante tocadas pelo inusitado do proposto), e bastante movido também pelas situações declinadas em textos decorados e depoimentos, com pé bastante afundado no melodramático escancarado que acaba por emocionar platéia (e pelo jeito boa parte da crítica).

Voltando à obra-prima desconsiderada no final das contas, no final dos votos, Beto Brant e seu “Cão Sem Dono” haviam iniciado o ano de nosso cinema com um verdadeiro achado cinematográfico; diria que quase um evento - se entendido que “evento” pode adjetivar também obras que não se pretendem ou se apresentam como grandiosas e ostensivas. O filme surgiu como uma seqüência natural – mas como é difícil a concretização desses caminhos naturais, na maioria das vezes hein? – no caminho do diretor, que vem abdicando do “glamour” e “status” justamente obtidos ao longo de uma carreira bastante correta e de muitos bons resultados, em troca e busca de um autoralismo raramente ousado por outros. “Cão Sem Dono” tem muito a cara do que deveria ser o cinema brasileiro; foi todo construído com a precariedade técnica – escassez de recursos - que se faz companheira quase eterna de nossas produções, e isso como opção dos diretores (jamais esquecer a cumplicidade com Renato Ciasca). A idéia foi a de deslocar o foco cada vez mais buscado pelos nossos realizadores, que recai sobre recursos técnicos e investimentos como as únicas maneiras imaginadas de concretização de trabalhos “decentes”, e direcioná-lo à verdadeira essência de nossa melhor cinematografia – que sempre buscou no “pouco”, nas idéias, na criatividade, a sua força. O filme surgiu num momento de indefinição, num vácuo, e mostrou caminhos com esse seu resgate de nossas entranhas. Além do mais, como obra isolada, é “verdadeiramente” forte, honestamente bom, emocionante até o mais profundo: sem qualquer grito, ou berro, ou esguicho de lágrimas desnecessários. Conforme o ano avançava não via nem um trabalho que pudesse desbancá-lo do degrau de maior do ano. Mas... E estou escrevendo isso me sentindo indignado mesmo.

Para quem tiver mais curiosidade, elucido mais sobre o filme em minha crítica para o site: http://www.cinequanon.art.br/emcartaz_detalhe.php?id=666&num=1

sábado, 29 de março de 2008

Desordem, bang e blá = Tonacci







Ontem estreou aqui em São Paulo um dos grandes trabalhos cinematográficos de todos os tempos. Sem exagero nenhum, posso garantir. Incluindo nessa possibilidade de comparação filmes dos grandes Glauber, Sganzerla, Bressani, Person... Nesse caso, o autor: Andrea Tonacci. Esses alguns que citei (somente a título de ilustração, e sabendo que há mais um tanto de nomes que confeccionaram obras de arte de nível tão superior quanto), mesmo transitando num patamar não tão grande de reconhecimento junto ao grande público, ainda conseguem ser "identificados" por algumas razões extras; mesmo que de raspão, de orelhada, de "ouvi dizer". Já no caso de Tonacci (aliás, italiano de nascimento), beiraria a incompreensão o grau de ignorância quanto à sua existência dentro do mundo da arte caso não fosse quase que opção sua uma espécie de auto-isolamento adotado diante das possibilidades do mundo da informação.

Autor que não está nunca aí para qualquer rigidez de prazos fixos como obrigatoriedade para se manter em evidência, sempre trabalhou num ritmo que lhe possibilitou executar obras para deixá-lo (a si mesmo, principalmente) satisfeito como artista rigoroso. Nunca se deixou "manipular" pelas imposições que o mercado arroga como únicas maneiras (caminhos) de retribuição de reconhecimento maior junto ao "mundo". Além do mais, sua arte é de caráter extremamente particular, coadunando com seu modo de compreender o todo. Seus filmes são "pensadamente" obras inconclusas como pacote a ser identificado. Ele jamais exerce a função do acabamento linear, ou do registro camuflado que faz do cinema arte somente ilusória - deixa transparecerem "pontas técnicas" em seus trabalhos, quando revela microfones, reflexos de câmeras... Para ele é evidente que o cinema pode abraçar linguagens variadas, criar; e isso também se reflete no momento em que, num "Serras da Desordem", qualquer possibilidade de catalogalização por termos definidos (ficção, documentário, animação...) pareça tentativa insana de quem insistir em tentá-la.

Tonacci é o autor que entrega o produto que parece totalmente solto, irregular, equivocado, mas que, ao final, faz perceber que boa parte de sua potência criativa está justamente nesses "enganos". "Serras" é um dos grandes filmes de todos os tempos. Trabalho complexo que demonstra ter sido concretizado como um apanhado geral do que ele havia feito anteriormente.

Só para concluir e deixar nítitido o grau de importância de Andrea, vale lembrar que na edição virtual da revista Paisà em que vários críticos votaram nos melhores 20 filmes brasileiros de todos os tempos (http://www.revistapaisa.com.br/anteriores/ed9/topsbr.shtm), "Bang Bang" e o próprio "Serras da Desordem" marcaram posição - e eu votei em "Blá, Blá, Blá", também. Abaixo coloquei comentários sobre os três filmes - dois resgatados de minha cobertura do Festival de Cuiabá, ano passado, onde o diretor foi homenageado, e um que fiz como parte da matéria da Paisà (completo, como mandei). E vale lembrar que no meu site, o cinequanon, há críticas por conta da estréia do filme, e o resgate de um bela entrevista concedida por ele, no momento em que comemorávamos aniversário e fomos abençoados com a possibilidade da primeira exibição do filme - como o mais belo presente que poderíamos ter recebido.


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"Serras da Desordem"

Esse é o grande filme do grande diretor que só tinha realizado, até então, grandes e quase desconhecidas obras. Serras, acaba por ser um amontoado dos conhecimentos de Tonacci, da vida dele, do modo que entende e constrói cinema. A carreira do diretor é irregular (se vista por uma constância temporal de produção) e seus filmes deveriam ser definidos como irregularmente geniais. Ousado, optou por fazer da arte uma ferramenta de expressão que anda muito bem sem o rigor do acerto a qualquer custo, invertendo esse conceito radicalmente quando optou por realizar uma outra coisa – vista sob essa ótica do acerto -, que não simplesmente "filme de cinema".
Quando o filme inicia e se estende na mesma e pacata toada por cerca de vinte minutos – mostrando de maneira idílica o modo de vida dos nativos dessa nossa terra -, se faz nítido que Andrea nunca procurou o caminho fácil para a capturar o público. Esse ritmo "natureza" é quebrado abruptamente com a entrada do homem branco em cena, e o estranhamento em relação a todo aquele início só vai acentuando e fazendo com que percebamos que não é de certezas que a obra se nutrirá para se contar. O trem que surge – a modernidade barulhenta e invasiva – remete os personagens aos nossos tempos e às nossas cidades, e o índio (Carapirú) que vagueia por longos anos revela a insanidade que se fez e se faz, ainda, contra os donos por direito dessas paragens.
Sem muitos avisos, de modo fantasticamente irregular, o filme dá guinadas e se revela documentário, se revela obra que cobra "razões", se revela um dos mais sensíveis retratos de nossa história - se revela, nas cenas antigas de uma reportagem, a realidade mais ficcional que se poderia imaginar. Para não falar na última cena, antológica, sem diálogos, e que diz tudo o que precisa ser dito – para que quiser entender.

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"Blá, Blá, Blá"

Noite de encerramento que se preze teria sempre que passar alguma obra de Andrea Tonacci. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo: daí, qualquer mortal sairia santificado e não notaria que tais eventos podem se estender a mais da conta, mais do que o suportável. Se bem que, no caso aqui de Cuiabá, apesar de estendido (vinte e cinco prêmios distribuídos), muito por conta do apresentador oficial do evento - o divertido, perspicaz e original Julio Bedin – o trajeto percorrido por todo o cerimonial fluiu fácil e com os contratempos necessários para a ocasião. Mas, voltando a falar da verdadeira benção que é a oportunidade de se assistir – após uma eternidade – a um filme como "Blá Blá Blá" (fotos 2,3 e 4)do homenageado diretor: impressionante como Tonacci sempre teve o que dizer com seu cinema. Filme de 1968 – bem dentro dos momentos mais cruéis do regime militar -, sua confecção já seria suficiente, pelo elevado teor político premonitório, para ser considerado como um trabalho a ser registrado como imprescindível em qualquer local do planeta que estivesse passando por momentos tão insanamente humanos. O discurso proferido por um "possuído" Paulo Gracindo beira a genialidade pelo seu conteúdo e, mais ainda, por dizer e desdizer as verdades, por inverter o que seria obviedade na boca de um ditador "família e pátria", com um discurso falsamente manso, conciliador, que, aos poucos, perde essa embalagem de papel frágil, para revelar-se um falar que coaduna com o que se deveria esperar de figura de tal monta. Em contrapartida, há o discurso do que luta pela honra humana, e que é apresentado como agressivo, como o que prega a não compreensão, a não conciliação, num aposto ao anterior, que vai aos poucos fazendo perceber a origem do título, a origem do falar por falar, que não quer dizer nada mesmo – pior, quer não dizer o que acontecerá ao que diz e é mostrado como o intransigente pelo seu blábláblá. Os símbolos de Tonacci estão lá – há os perseguidos, o deslocamento tresloucado num veículo, os tiros dados a esmo (que se repetem até nos dias atuais como em "Serras da Desordem", por exemplo)... – e o "não filme" novamente. "Não filme" na forma de tentativa de uma compreensão linear e dentro do que pregam as cartilhas, porque se há o que se deveria dizer dos trabalhos do diretor é que são realmente cinema ("sim filme"). "Blá Blá Blá" poderia ser "Terra em Transe" de Glauber, poderia ser um dos políticos Godard, mas tem a grande virtude de ser "simplesmente" um legítimo Andrea Tonacci.

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"Bang Bang"


Falando de cinema, um pouco antes, no final da tarde, tive a oportunidade rever após longos anos uma das obras essenciais do essencial diretor - e homenageado pelo evento – Andrea Tonacci: "Bang Bang". Não tem jeito. Passam-se os anos e o filme continua pegando no âmago. Genial em sua "inconcretude", em seu não contar linear, em seu não explicar. Genial porque amparado na figura ímpar de Paulo César Pereio, na voz dele, nas atuações em tom over dos outros personagens desajustados, como alguns outros dos grandes personagens da história dessa arte. Genial porque questiona através de seu processo criativo alguns dos cânones adotados desde o início da existência da arte cinematográfica, seguindo uma tendência revolucionária e questionadora da época – a câmera que aparece refletida no espelho, ou na sombra, ou o cameraman que desce da escada aos olhos de todos, abandonando seu instrumento de trabalho. Por trás de tudo, da dificuldade da análise de uma história, percebe-se que se fala do ser que tem um segredo e é perseguido por isso – e está ai uma grandessíssima metáfora que abrange poder (institucionalizado ou pelas armas) e perseguição. Não há no cinema atual tanta ousadia. Tonacci amadureceu com o passar do tempo e estranha um pouco o seu método, as suas opções, naquele momento (mas, ainda se admira com isso). Hoje em dia, ele realiza um "Serras da Desordem", como se estabelecesse que não há mais nada a ser dito no cinema; filme definitivo (e no qual se percebe aquele Tonacci do início).